domingo, 30 de abril de 2017

*Na solidão tece a sabedoria (O melhor amigo)

Da janela vê-se poucas luzes acesas. A noite já avançada exige movimentos leves, precisos, silenciosos. Longe, o barulho do motor de um automóvel que, certamente, não seria ouvido durante o dia. Somente um homem desce a rua cauteloso, observando não se sabe o que. Uma figura que atravessa a madrugada, parando em cada esquina e observando detalhes perdidos. Talvez na solidão de sua mente... Logo atrás, um cão. Também solitário, imitando os passos lentos e pesados de seu dono.

Sempre tive uma boa relação com os animais, mas nunca gostei de tê-los em minha casa. Exceto na infância, quando havia os quintais, a natureza... Sempre ouvi dizer que os cães se parecem com seus donos. Partindo desse princípio, eu já vivi momentos muito divertidos em minha vida, observando, nas praças e nas ruas, os cachorrinhos e "cachorrões" e comparando-os com as pessoas que os conduziam. Ou seguiam.

Lembro-me de um Pequinês estrábico, talvez já velho, que, associado à imagem da senhora que o acompanhava com passos fatigados em um andador, parecia compartilhar a lentidão de seus movimentos, ao se arrastar ao seu lado numa atitude de envolvimento. Lembrei-me também de um senhor obeso, que me parecia doente, com aspecto de cansaço, caminhando pelas ruas do bairro Luxemburgo. Trazia atado a uma corda um buldogue que, passo a passo, preguiçoso, balançava uma pele que parecia solta de seu corpo. Havia em seu olhar, como no do dono, uma expressão se súplica.

Na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, vi  uma cadelinha Pincher que usava sapatinhos, lacinho no pescoço e tinha um pelo muito vistoso e brilhante. Limpíssimo. Usava uma espécie de saínha também. Na verdade uma mini-saia. Uma beleza.
Vinha com galhardia, com uma coleira que se parecia mais com um cordão de ouro. Quem a puxava era uma mulher muito magra, muito pintada e cheia de adornos pelo corpo, trajando uma roupa apertada, quase obscena.

Em um piscar de olhos ela foi atacada por um rottweiler (a cadelinha) que, mesmo transparecendo violência, se traiu, em instantes, ao simular demonstrações de desejos ocultos... Mas o episódio teve um ótimo desfecho. Seu dono, homem atarracado e "sarado" pela lida diária na musculação, com ares de pouca graça, interveio e interrompeu o que poderia ser o começo de uma séria relação de amor. Talvez desastrosa. A mulher, assustada, ofegante, piscando repetidamente os olhos para o homem, tomando sua cadelinha no colo, suspirou fundo e alto de alívio. Nessa hora - juro - quase percebi um sorriso estampado no rosto do herói salvador.

Tenho um amigo que, grande observador, é capaz de parar por horas em uma esquina olhando o movimento das pessoas e dos carros. Um espectador da vida. Seu fiel escudeiro, circunspecto, monta guarda ao seu lado. Ora olhando para um lado, ora para outro... Um pouco desconfiado, como o dono, ele é um belo exemplar do Schnauzer.

Eu também já tive alguns que marcaram minha vida. Escrevi, há alguns anos, um texto sobre eles e o dediquei a outro cão, cuja vida se extinguiu perante meus olhos, enquanto ele, resignado, solitário na morte, me olhava ao lado de outras duas pessoas, como se fôssemos familiares... Ao lembrar desse episódio sinto um aperto no coração. Momento triste. Seu olhar me tocou em um ponto da alma, no ermo de minha mente. Até hoje não consegui compreender esse sentimento e, às vezes, essa lembrança me faz ficar pensativo e cheio de dúvidas. Acho que ele queria me dizer algo do futuro. Viagem na madrugada.

Lá fora, ainda escuro, vejo o homem solitário, com seu cão solitário. Agora os dois, voltando, continuam procurando algo que não encontraram. Param, examinam e, trocando um olhar vago, seguem em frente. Não há pressa. A noite é lenta. As horas se arrastam...

*Charada silábica clássica - Uma e duas