sábado, 22 de abril de 2017

Pagodes

Encontrei um amigo que há muitos anos eu não via. Dos tempos em que vim para Belo Horizonte e vivia sem uma morada fixa. Naquela época ele era estagiário em um banco e sonhava poder ser, um dia, advogado. Nunca mais o vira. Brincava comigo  o tempo todo e, às vezes, eu pensava que ele nunca faria algo sério na vida, pois estava sempre se escondendo atrás de seu bom humor. Não se mostrando nunca.
Nesse encontro ele, já mais gordo e grisalho, perguntou-me o que eu fazia. Disse-lhe que era músico e que, além de tocar, fazia arranjos e produzia CDs, DVDs, shows... Ele, curioso, perguntou-me: - Isso dá dinheiro?

Talvez arrependido, sem esperar a resposta, pediu-me que explicasse para ele, exatamente, o que era ser “Produtor Musical”.
Expliquei-lhe que o produtor trabalha com o artista desde o processo de seleção do repertório, a sonoridade que o trabalho terá, as técnicas que serão utilizadas na gravação, instrumentos, estúdios eficientes para o projeto proposto etc. Que depois disso resolvido, o produtor vai, com os músicos, para o estúdio e faz a direção, cuidando para que se mantenham as características musicais propostas pelo artista e a coerência entre gênero e estilo. Disse-lhe que produção, depois de considerados os critérios técnicos e estéticos, é a arte da negociação, embasada pelo respeito e a ética, já que as linguagens são subjetivas. Que depois de gravadas as bases instrumentais, o produtor dirige o cantor ou um instrumentista solista, apontando as qualidades e mostrando os pontos falhos como afinação, dinâmica e articulação, por exemplo. Que esse é um momento muito importante, quando tudo deve ser tratado com muito cuidado e delicadeza, diante da sensibilidade do intérprete que se mostra completamente “nu”, expondo suas qualidades, mas também as inseguranças e deficiências. Que, no final, a busca é para que tudo fique bonito de se ouvir e que os objetivos sejam alcançados.

Depois desse “discurso” todo, ele sorriu e, ironicamente, disse:
- Então você é pago para apontar defeitos?!
- Mais ou menos... - eu disse brincando e me silenciei -.
Sem muito interesse perguntei-lhe:
- E você o que faz?
- Eu sou provador de comida em eventos que envolvam grandes personalidades.
Mesmo desconhecendo sua função – pensei que isso era algo da Idade Média ou Renascença – perguntei-lhe brincando:
- Então te pagam para comer?
- Não é bem assim – disse ele meio contrariado – Há riscos, inclusive de envenenamento. Interrompi-o:
- Na música também é assim... O problema é até maior. O veneno não é letal. Música de má qualidade mata aos poucos a sensibilidade e curiosidade artística e empobrece o espírito. Disse-lhe que todas as classes sociais brasileiras estavam a cada dia mais pobres da compreensão do sentido da busca de refinamento por meio da arte, para o lazer e elevação da alma, se alimentando mal de cultura artística.

Ele começou a rir e me disse que eu era uma pessoa esquisita. Talvez meio louco, ou muito teórico. Que ele se lembrava de eu mostrar para ele, quando nos conhecemos, algumas músicas de “fazer boi dormir”. Que isso é que fazia mal. Lembrei-me que eram os LPs de Chet Baker (Sings) e Bill Evans (Symbiosis) com Clauss Ogerman, que eu ouvia naquela ocasião e havia mostrado para ele.

Me perguntou em tom desafiante:
- Quem decide se uma música é boa ou ruim? – percebendo sua  provocação, segui em frente -.
- Não gosto do conceito de bom ou ruim. Prefiro o discernimento. Acho que a educação e a cultura deveriam ser abordadas tendo como prioridade essa meta, formando pessoas conscientes, dando condições e cultura suficiente para capacitar a possibilidade de escolha. Mas até mesmos os órgãos competentes estão decadentes, abandonados, devido à falta de cultura e de administração tendenciosa... Não me agrada a massificação de tendências mercadológicas mascaradas de conceitos culturais.

Porque gostamos mais de um alimento que de outro? – Rindo, ele me disse:
- Tempero, sabor suave, cheiro... Higiene, cuidado na preparação, na escolha de frutas, hortaliças e outros tantos frutos colocados à venda em época adequada...
- Excelente! –disse-lhe – Você citou alguns “cuidados” necessários, para se obter um bom resultado. Mas, uma laranja, mesmo estragada, continua sendo uma laranja. O que a distingue de uma outra é a qualidade, desde o plantio, cultivo, forma de colher, transporte, tempo e condições de exposição... Tudo isso influencia o sabor. Sempre haverá os que gostam de laranja lima, pera, campista... Mas sem algumas características que citei, ou melhor, você citou, nenhuma delas será de boa qualidade.
- Com isso você afirma que, mesmo que eu me sinta bem ouvindo um tipo específico de música, eu tenho que ter essa preocupação? Aprofundar...
- Não. A despreocupação é que mostra a cultura do povo, de um modo geral. Se temos consciência de que existe a música de entretenimento atrelada à indústria e a música de cunho cultural, elaborada a partir do alheamento às causas de mercado e massificação de tendências, cultivamos um crivo que determinará aquilo que é passageiro, que poderá nos fazer bem em determinadas circunstâncias, mas que não pode ser o motivo condutor de nossa conduta frente à política sócio-cultural, religiosa ou relacionamentos interpessoais. Cultura é discernimento. Em qualquer área...

Me olhando com certa ironia, com desinteresse, ele sorriu despreocupado e disse:

- Eu como de tudo e não tenho medo. Sabe por que? Eu sei o que é bom. Meu paladar é refinado e meu olfato muito fino. Ao sentir o primeiro sabor, eu já sei do que se trata. Nada pode me fazer mal porque à primeira degustada eu já descarto se julgo inapropriado ou de sabor duvidoso.
- Isso é cultura! Que bom para você – respondi. Eu ouço e analiso tudo, pois sou produtor e tenho que estar bem informado. Muita coisa me faz mal.  A propósito – continuei – você gosta de música, ouve música?
- Muito...
Parecendo meio arrependido de dizer que ouvia música, ele falou que talvez não fosse bem o que eu chamaria de “música de boa qualidade” aquela que o agradava.
Disse-lhe que achava normal. Que sofríamos de um bombardeio diário que invadia nossas casas por meio da televisão e redes sociais que não têm nenhuma função social... Que nossa mente estava poluída e condicionada pelos modismos.
Ele, talvez animado com o que eu disse, ou me ironizando, como nos velhos tempos, começou a cantarolar trechos de pagodes e funks, enquanto balançava seu corpo de forma desengonçada. Parecia uma criança... Percebendo que eu estava contrariado, observando as pessoas que passavam por nós, ele parou repentinamente e disse:
- Me perdoe. Me desculpe. É que eu gosto muito!

Eu, sem saber o que dizer me embaralhei completamente ao tentar ser amável. Disse-lhe que gostava de pagode. Principalmente de viola caipira. Que admirava Renato Andrade, Tião Carreiro... Que adorava aquela batida cheia de segredos.
Olhando-me nos olhos, ele pareceu duvidar de mim. Olhou para o relógio e disse que teria que ir embora. Depois de um abraço, já se afastando, ele,  hesitante, olhou-me e disse, coçando a cabeça:
- É... Engraçado. Nunca imaginei que fosse possível tocar “Pagode” em viola caipira. Pensei que era coisa somente de samba. Há louco pra tudo.
Eu, fingindo bom humor, ironizando-o, falei:
- Não!! Tudo é possível. Debussy, inclusive, já arranhava um cavaquinho... Tanto é que compôs "Pagodes". - surpreso ele disse: -
- É, mas esse eu nem tenho ideia de quem é...

Enquanto ele se afastava, lembrei-me dos “Sermões” do Padre Vieira: “A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas...”. Envergonhado de minha presunção e soberba, arrependido do desfecho da conversa, segui meu caminho. Tenho muito que aprender sobre a vida...