segunda-feira, 5 de junho de 2017

Estigma - Queria que fosse um poema

Em uma esquina, no bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte, fiquei durante alguns minutos observando uma moça, de cócoras, revirando os sacos de lixo de um prédio em frente. Ela, ao sentir-se observada, levantou-se e olhou para mim, limpando as mãos em sua saia longa. Lindos olhos grandes e negros que me pareceram, talvez, envergonhados. Que preferiam não serem notados, pareceu-me.

Era jovem e muito bonita, com cabelos encaracolados e um corpo muito atraente, embora vestisse roupas velhas e surradas, porém limpas. Percebi um belo gesto feminino quando ela, com as costas da mão, ajeitou seus cabelos e se recompôs, recostando-se em um poste. Não consegui deixar de olha-la. Estranha visão o quadro à minha frente. Um contraste do ideal estético que o mundo, com seus modismos, nos leva a buscar e a aversão com a qual estamos acostumados a considerar os “restos” de nosso dia a dia.

Ali eu quis ser Henri Cartier-Bresson e, com poesia, registrar um momento tão sublime da espontaneidade da singeleza e da beleza humana. Ou quem sabe documentar, como Sebastião Salgado, momentos que se congelam num piscar de olhos à nossa frente para inebriar nossa alma e fazer brilhar nossos sonhos. Nos dizendo que falta ainda muito para aprendermos sobre a vida.

Em meu íntimo tomei coragem e, em uma imagem idílica, posei junto com ela, para Robert Doisneau. Mas isso foi apenas uma nuvem que passou pela minha imaginação. Como aquelas que na infância, quando deitado no chão, eu observava no céu e via animais se movendo, heróis e vilões em batalhas, castelos e princesas construindo minha vida...

Com certa angústia tive medo de perder aquele momento. Confronto entre meus conceitos de beleza, de sucesso e de poder na vida, agora ameaçados. Ela, como se despedindo, levantou e, desistindo de seu trabalho, apanhou uma sacola com algumas “preciosidades” encontradas no lixo de outros e afastou-se. Eu, cruel invasor de seu trabalho, fiquei ali parado, olhando-a enquanto se afastava...

Mais tarde, repassando essa estória (?) lembrei-me de *Guimarães Rosa:

“Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...”

*Magma


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