quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Numa noite em Lisboa...

Lá fora, uma chuvinha tímida convidando para o romantismo. Aqui dentro, um romance travado entre olhares sedentos e angustiados que vagueiam pelo nada, com breves e indecisos encontros. Em minha mesa, ao meu lado, dois poetas. Um, amigo de alguns anos, já muito experiente nos "fazeres" de sua arte, de sua vida, trazendo nas palavras a leveza quase insustentável  da poesia, da pureza e da sensibilidade. Das amarguras também. O outro, amigo recente, envolvido pelo sonho poético de ser e saber viver a poesia, declama, entre goles rápidos de um belo e saboroso vinho tinto, os prazeres e dores do olho clínico imposto pela profissão. Talvez o ofício da vida vivida em poesia. Eu, em silêncio, acompanhava cada palavra dos poetas, enquanto admirava os olhares indagadores de pessoas que, como eu, talvez buscassem cumplicidade em cada movimento naquele pequeno restaurante. Simples e tão nobre... Enquanto isso, várias garrafas de cerveja vibravam pelo alívio do peso de suas vidas. Eu era o libertador de suas cargas sofridas. Era uma noite linda, de conversas certeiras e um romantismo subjetivo e solitário, permeando a atmosfera. Momento daqueles em que voltamos a ser criança, pedindo que um ente superior não permita que se acabe.

Depois de muita música nas conversações, muito sabor enlevando a alma e o bem estar invadindo o peito, indaguei ao meu velho amigo poeta: Por que será que nos sentimos atraídos por alguém, por um gesto delicado, um olhar ou um sorriso simplesmente, a cada instante em nossa vida? Pessoas que talvez nunca mais veremos, com quem nunca teremos a oportunidade de uma conversa, mas que em uma fração de segundo cruzam nosso olhar. Insatisfeito com minha observação disse-lhe que, às vezes, apenas um semblante despreocupado, suave e acidental, que cruza por mim na rua, me leva a um sentimento de bem estar e de compreensão do sentido da beleza. Um sentimento daqueles em que não há espaço para as palavras, mas que cede seu lugar para uma nova experiência similar quando, vagando a esmo, se encontra com outros olhos. Ele, com um olhar seguro e, ao mesmo tempo vago, incerto de suas palavras, me disse: Faço poesia a vida toda por causa dessa dúvida. Creio que são os amores de cada instante, que movem nossa vida como artistas. Talvez uma projeção do ideal estético que buscamos na arte. Do sonho. Do equilíbrio da forma e da sensibilidade, de tudo que somos e vivemos. Paixões...
Lá fora, uma chuvinha fina anunciava a madrugada. Rostos lindos, de mulheres lindas e casais apaixonados, se misturavam com os reflexos e indagações naquela vidraça opaca, engordurada pelos sonhos que emanavam de nossa mesa. Era apenas uma noite em Lisboa.