quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A horta

Aguar de forma correta, adubar, limpar os canteiros e arrancar as ervas daninhas… Desde que respeitadas as características de cada planta em suas particularidades, esse é o segredo de uma boa horta. Aprendi isso muito cedo. Havia uma grande horta em minha casa, na infância, e cuidar dela diariamente era obrigação de todos da família.

Estive, com meu filho, recentemente, em minha cidade natal. Embora tenha quase toda a família morando lá, gosto de me hospedar em hotel. Tenho hábitos noturnos e adoro o ambiente de “passagem”, com suas mordomias, que os hotéis nos proporcionam.  Depois
de uma tarde e noite de muita brincadeira e agitação, fui com meu filho para o hotel. Como sempre, na hora de dormir, o pedido para contar uma história. Nesse dia, não passou do “era uma vez…”.

Eu também, já sob o efeito de algumas cervejas, dormi rápido. Acordei durante a madrugada várias vezes para averiguar o sono tumultuado de meu vizinho de cama. Incomodado pela sua rinite, ele respirava com dificuldade. Ergui-o e, deitando-me ao seu lado, acomodei-o em meu peito. Dormiu melhor. Como respirava com dificuldade, resolvi ajuda-lo com um soro. Acordei-o e disse que seu nariz estava entupido.
Ele, semi-acordado, olhou-me e disse:

–  Como você sabe? Sorri e disse:
–  Estou acordado te observando.
–  Quê? Disse ele, virando-se para o canto e dormindo novamente.

Fiquei durante algumas horas que talvez tenham sido minutos na noite solitária, observando seu sono, seu rosto. Espelho refletindo um olhar de pureza que imagino ter tido um dia. Em êxtase, pensando no que somos, no que buscamos e no que experimentamos, olhando para o nada, dormi…

Sonhei que aguava a horta de minha infância e brincava com a água, criando lagos em torno das plantas e vendo-os desaparecer. Criava jatos fortes comprimindo os dedos em torno da mangueira de borracha e mirava as árvores distantes, lançando-os como se fossem dardos. Nessa brincadeira também fui cruel, afogando algumas formigas que trabalhavam nos arredores. No sonho eu, criança, fui visitado pelo adulto que sou
hoje.  A criança que era eu, olhou-me perguntando quem eu era. Como havia entrado naquela horta se o portão estava trancado. Eu, adulto, confuso, sem saber o que dizer, falei que queria aguar aquelas hortaliças e brincar com a água e as plantas. Ele me olhou desconfiado e disse:

–   Não pode. Hoje é o meu dia. Aqui em casa é tudo combinado. Cada dia um     cuida da horta. Depois, só daqui a seis dias eu vou poder brincar mais.
–   Mas essa horta é grande e eu posso ajuda-lo… Olhou-me sorrateiro e não disse nada. Apenas sorriu. Percebendo o meu desapontamento ele, virando-se, repentinamente molhou toda a minha roupa. Começamos assim uma “guerra” de água.

Eu, para me defender, sem saber que sabia dessa brincadeira, pulei para o lado e apanhando uma cuia próxima ao tanque reservatório, ataquei-o com uma
saraivada de água, deixando-o todo molhado e risonho.  Assim brincamos um longo tempo, pisando onde não devíamos, arrastando a mangueira sobre os canteiros, fazendo grande algazarra. A brincadeira foi interrompida por uma voz brava que escondia certa ironia, vinda lá do princípio do mundo de minha vida que, ralhando, pegou-o pela orelha e disse:

–  Cuida bem das hortaliças. Elas são generosas com os seres e nos servem como alimento. Precisam da água, mas não as deixe encharcadas.  O cuidado é preciso, mas também é necessário evitar o excesso. Você pode brincar, mas não pise nelas, não as cubra com terra e, de tempos em tempos, arranque o mato em volta delas. Deixe-as respirar. Elas são como nós. Têm que ser bem tratadas para que sejam saudáveis.

Eu ouvia tudo com curiosidade. De repente algo me pegou forte pelo ombro. Assustado, acordei com uma voz que, longe, me dizia:

–  Cê dorme demais…

Abri os olhos e respondi que dormira pouco. Ele, sorrindo matreiro, disse:

–  Fala a verdade. Nós fomos dormir na mesma hora.

Sorri, abracei-o e pensei em Dante. Na alegoria da vida. Vi o homem, a fé e a razão refletindo um olhar que tanto viu e tanto quis, sem perceber o quanto teve.


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