quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Rio Tejo

Pensando nos rios, lembrei-me da beleza, da tradição e da importância desse fio de água que, ao nascer, segue sempre em direção a um outro rio maior ou ao mar. Em sua inquietude mansa e persistente, enfrentando barreiras e superando obstáculos. Há um, inclusive, que não alcança o mar, mas cria e desenvolve um ecossistema ao espalhar suas águas pelas terras secas do deserto… Um mensageiro de sonhos para os animais que habitam essa região e que, graças a isso, conseguem alimento para sua sobrevivência.

Quando penso em um rio, em um lago e córregos, me vem a certeza de que há sempre algo maior que nos atrai e nos encaminha para o crescimento. Que isso se trata de uma força exercida pelas leis naturais.

Quando eu era criança, sofrendo com o frio das manhãs em minha cidade (por lá não passa um rio) enquanto ia para a escola, eu sonhava com os cobertores e tentava entender e explicar para todos, o quanto era desnecessário esse sofrimento. Alguns, com muito boa fé, explicavam que “Deus ajuda a quem cedo madruga” e que eu devia me dedicar aos estudos sem reclamar, para poder, um dia, ser “alguém” na vida. Uma visão conservadora que minha compreensão, naquela época, não alcançava. Como eu sempre gostei de ler, com o passar do tempo, encontrei muitos que me apoiavam.

Principalmente os poetas.

Eu amo poesia. Nela podemos ser românticos, irônicos, charlatães, moralistas, pseudo-românticos e, claro, como em tudo, muito verdadeiros. Isso, mais raro. Alguns dizem até, que o poeta pode destilar veneno em suas palavras. Acho que sim. Mas o poeta também brinca com a dor, a vergonha, com o amor e muitos outros temas! Muito me atrai a religiosidade que sinto na forma como são abordados os temas na  poesia. Tudo isso fruto de impressões e alguns poderão julgar mal meus argumentos, mas é essa a forma como vejo a poesia e os poetas.

Voltando à infância, houve um poeta/escritor que muito me inspirou ao apoiar e corroborar meu sentimento. Por acaso, em um período de inquietação com o frio das manhãs e a ida para a escola, li um livro de poesias e pequenos contos. Nele, feliz, percebi que, finalmente, alguém me compreendia.Estava escrito: “Eu queria ser como o rio. Segue seu curso lentamente, sem abandonar o leito”. Creio que era uma brincadeira, mas me marcou profundamente.

Hoje, sou incapaz de aceitar qualquer tipo de pressão quanto ao desempenho de minhas atividades no dia a dia. Vou seguindo o meu curso sem abandonar o leito onde repousa minha boa vontade de viver em acordo com o que penso e busco, sem desespero e estresse. Aceito os obstáculos e tento, como posso, com calma e flexibilidade, contorna-los e seguir meu caminho. Como todos, muitas vezes com sofrimento. Mas certo de onde quero chegar… Ao mar. Se eu não conseguir, que minhas “águas” se espalhem por outras trilhas e sirvam para o cultivo de outras ideias. Isso me basta. Embora, agora, eu esteja me sentindo um charlatão.

Olhando nessa manhã o Tejo, em Lisboa, lembrei-me de minha primeira visão desse belo rio, em 1987. Tanta coisa mudou em minha vida que, forçosamente, tive que aceitar os cabelos brancos, a voz mais branda e a pele mais entristecida. Em mim, acho que somente os olhos compreenderam o rio. Continuam os mesmos… Por outro lado ele, impassível, passando, continua seu caminho rumo a “sabe-se lá o que…”. Talvez ao mar.

Com um misto de entusiasmo e desgosto, hoje eu olhei, mais uma vez, suas águas caminhando na mesma direção, contornando os obstáculos e dando vida a todos os olhos sedentos de prazer nessa manhã ensolarada. Olhei-o mais uma vez e compreendi que ele não passa nos dando um adeus. Ele continua passando, passando… Eternamente passando e se remoçando e se renovando. Como pode um rio que nasce de um fiozinho, ser grande e poderoso e, depois disso tudo, se entregar ao mar? Também não sei. Tenho muito que passar…