sábado, 28 de outubro de 2017

Sonhos graciosos - Adágio Molto

Não compreendo muito a convivência com as plantas e as flores em um ambiente doméstico com paredes em volta, alheio às variações climáticas. Sinto pena delas o tempo todo. Mesmo sob argumentação de entendedores do assunto sobre sua adaptação ao nosso ambiente, desde que com cuidados  específicos, eu tenho dificuldades com plantas fora de seu habitat. Sempre que as observo fora da natureza, penso que foram abandonadas e condenadas ao cativeiro de um vaso ou um jarro d’água em um ambiente inóspito…

Um amigo, músico, já falecido, dizia que era uma loucura minha. Que devemos cuidar bem, pois elas alegram e trazem beleza às nossas casas e apartamentos. À nossa vida. Não sei… Gosto mais das flores no campo, na primavera, e muito daquelas que desafiam determinadas estações, trazendo beleza em momentos inesperados. Algumas se destacando com as suas cores, com suas formas e perfume. Me encanta aquelas de vegetação rasteira, as que florescem em pântanos, os ipês solitários que vemos às margens das estradas…

Para mim, a Rosa ainda é a mais linda flor. Me lembro delas brancas, vermelhas e rosas, sorrindo em um jardim de minha casa, na infância. Ali eu passava horas olhando os Cravos brigões, as Marias-sem-vergonha sempre dispostas a criar algum conflito e a belíssima, porém lamentosa, Samambaia Chorona. O esbelto e vaidoso Antúrio e as festivas Buganvílias que adoravam as alturas para melhor observar o “mundo”. Estas flores conviviam com laranjeiras, abacateiros, mamoeiros e muitas outras árvores frutíferas que miravam, com olhares forçados, inclinadas pelo vento, uma bela horta pintada com o verde escuro do estrume do gado, contrastando com vermelho, amarelo, branco e verdes vivos de muitas tonalidades das hortaliças.

No meio dessa aquarela do mestre dos pincéis, eu ficava horas observando o baile de formigas, abelhas e moscas que, insatisfeitas, voavam com toda a força de seus motores que zuniam ensurdecendo todos à sua volta. Pardais inquietos disputavam espaço com os fidalgos Sabiás que não negavam um recital nas tardes quentes, enquanto Garrinchas driblavam e provocavam um Caga Sebo ou um Bico de Lacre que, desavisado, invadia um espaço privado. Valentes até a chegada de um inquieto e desastrado Sanhaço que, sedento de alimento, não aceitava a divisão de um belíssimo mamão.  Enquanto isso um gentil poeta encantava todas as flores com seu beijo suave. Depois de muitos galanteios, deixava nelas um sentimento de desejo, embora roubasse o que havia de mais doce em sua essência.

Todos disputavam as cores e a leveza natural com uma moça que passava, desavisada de sua beleza, por essas cercanias. Tinha um olhar de rapina, cabelos negros e brilhantes e parecia não saber dessa festa que todas as tardes se repetia naquele jardim. Eu, circunspecto, de dentro aguardava a sua passagem. Sonhava e desejava ser visto em meio a tanta vida em movimento. Queria somente um olhar e um sorriso… Nunca me deu.

Não sei quando desapareceu esse desejo de ser percebido. Talvez no dia em que, perplexo, vi um pássaro pousado em uma folhagem, mirando os mamoeiros carregados de frutos que imploravam para que ele aproveitasse de seu alimento. Minha vida mudou depois do dia em que vi por alguns minutos, à minha frente, o Gaturamo. Percebi que a beleza é infinita. Que ultrapassa os limites de nosso conceito. Que nunca a alcançamos. Que poderemos ser surpreendidos por sua infinitude e superioridade quando nos sentimos seguros de tê-la encontrado.

Tenho, em casa, uma  bela orquídea que me acompanha há algum tempo. Chegou pelas mãos de um amigo. Resiste às intempéries e aguarda, resignada, a possibilidade de brotar belas flores uma vez por ano. Às vezes, no tempo de espera, quando só existem algumas folhas verdes, eu fico pensando, à noite, quando passo alguns instantes à sua frente, como é custoso crer que um dia, quando menos se espera, surgirá um pequeno indício de que sua beleza nunca se esvaneceu. Que sempre esteve viva em sua essência. Apenas aguardando o momento certo de romper, com suas  forças, o esquecimento da memória e surgir com uma beleza renovada, mesmo que passageira.

Quando ela se vai, passo muito tempo esperando, quase todos os dias olhando e imaginando quando ela voltará. De repente eu a vejo vistosa, suave, encantadora. Com uma beleza renovada. Nesses momentos de descuido e desesperança  ela reaparece me ensinando que está viva. Que não morrerá jamais. Que sempre estará à espreita em momentos de esquecimento, naquele jardim, aguardando um olhar e um sorriso, mesmo que passageiro.