quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Sonhos graciosos - Modinha

De olhos fechados, sentia meus dedos deslizando pelas cordas que vibravam, levando uma música bonita e singela aos poucos ouvintes presentes. Longe, entre uma nota longa e outra, ouvia-se o ruído grave e baixo da cidade. Em dois momentos meus olhos se abriram e, casualmente, encontraram os dela que, serenos, bonitos e inquiridores, observavam o movimento de minhas mãos. Eram suaves…

Terminada a música, não os encontraria mais. Arredios, eles somente passavam por mim desapercebidos. Mas havia um pequeno momento nesse passar, que me levava a sentir algo bom, desconcertante. A mente, fervilhando, não escondia a admiração que sentia por sua beleza simples, não provocativa, que tanto me provocava. Me conduzia a um eterno diálogo interior, com um misto de paz e inquietação. Tentei elaborar e dizer algo… Não consegui. Há coisas que não são ditas com palavras. São sentidas e se esvaem. Mas ficam na memória como a lembrança da fragrância de um perfume.

A música já havia dito tudo que eu podia dizer. Os ouvidos e olhos que a recebiam, somente queriam deixá-la acariciar seus desejos de pureza e sentir a vibração que irrompe do som que emana não se sabe de onde, dizendo não se sabe o que.

Despedi-me dos presentes e segui meu caminho.

Certo dia, enquanto dirigia, eu a vi em uma esquina, próxima a uma praça. Linda, com os cabelos impacientes com o sol, que tentava refletir e denunciar sua presença naquela rua do centro da cidade. Trajava uma calça jeans apertada e blusa branca muito leve. Roupas simples que valorizavam sua beleza. Contornei a praça e retornei… Não estava mais lá.

Quisera eu, naquele breve instante, estar do outro lado da rua e ser personagem de uma fotografia de Robert Doisneau.

Voltei para casa, fechei meus olhos e relembrei aquela música bonita e singela que tocara naquele dia. Meu coração foi inundado por paz e suavidade. Depois de um instante de transe, levantei as pálpebras. A penumbra do quarto e a brisa leve que entrava pela janela aberta, naquele crepúsculo da tarde, pareciam não me perceber. Me ignoravam. Eram somente sombras úmidas e inquietas que escorriam pelas paredes enfumaçadas do meu pensamento… Sons em vão. Longe, uma lua frágil ameaçava a liberdade do dia.