sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Dó de peito

De longe, via um quadro parecido com figuras de livros de inglês. Aqueles que estudamos, onde, em uma mesma cena, enxergamos vários acontecimentos...
De um lado, pessoas com olhar de cobra, paralisados, desfrutando os alimentos, solitárias. Idiomas se misturando e comprovando que, nessa lição, eu não aprenderia nada. De outro, turistas idosos, com alegria incontida, se revezando em histórias que me pareciam engraçadas, mesmo não entendendo nada. Podia perceber certo exagero nas reações recíprocas, no desenrolar das brincadeiras.

Dois casais, à minha frente, exageravam nas ironias e criticavam, com olhares maliciosos, todos que passavam por eles. Cumprindo a obrigatoriedade de serem incontidamente felizes, eram deselegantes. Ao lado deles, um indivíduo os observava e reprovava com um aceno negativo de cabeça, enquanto mostrava todas as vítimas alimentícias de um mastigar com boca aberta.

Um grupo de turistas solicita participação nesse quadro e, entrando em algazarra, naturalmente, monta um set de filmagens e fotografias, em pleno salão.
Atendentes com olhares aflitos, correm de um lado para o outro, trazendo estampado, em seus semblantes, o lema: Não há tempo a perder. Há muito trabalho. Corram... Crianças desatentas, brincam e correm pelo salão, para desespero ou alívio de seus pais. À minha frente (já escolhi um assento), um homem com olhar taciturno, caminha em minha direção. Sem nenhum pudor e sem me conhecer, quer saber o número de meu apartamento... Obediente, reprimido por seu olhar inquiridor, mesmo hesitante, cedo ao seu apelo.

Estou no café da manhã, em um hotel de Lisboa.

Na noite anterior, tomara cerveja até tarde, no bar ao lado, atendido por um garçom e uma garçonete muito simpáticos e, às vezes, por um outro, emburrado, que me parecera ser o gerente. Talvez...

Entre uma cerveja e outra, breves conversas (frases) entrecortadas por pedidos de clientes, atendidos com solicitude. Depois de algum tempo e copos de cerveja, descubro que a atendente é brasileira, de Minas Gerais. Mesmo sem conhecê-la, percebo que quando encontramos pessoas de nossa terra, em lugares inusitados, acreditamos que elas certamente “falam a nossa fala”, nos levando a certa simpatia despretenciosa.

Entre cervejas e frios - frios e cervejas, vou conhecendo pouco a pouco os dois que me atendem. A menina, de poucas palavras e simpatia incontestável, sempre atenta à minha mesa. O rapaz, daqueles que não negam um sorriso a ninguém, conta que não conhece o Brasil, mas que namorara uma japonesa brasileira. Ele ri de sua própria piada e, solidário, eu o acompanho. Estava divertida a noite.

Ao meu lado uma bela cena de um casal francês, de idade avançada, que entre goles de champanhe, se desmanchavam em “Je t’aime” e “mon amour”. Em outra mesa um casal que não consegui identificar a nacionalidade. O homem, com cara de justiceiro do “velho oeste”, mostraria suas façanhas em defesa dos explorados, ainda nessa noite.

Mudando de assunto: todos os cervejeiros têm, como estratégia básica, um mapa com a localização dos banheiros mais próximos, em qualquer lugar em que se encontrem. Falhei nesse quesito. Quando procurei, o mais próximo, para meu horror, se encontrava no andar de cima. Estava tranquilo, embora não me perdoasse pela falha no planejamento estratégico. Subi as escadas e, sem pressa, me reabilitei.

Desci calmamente as escadas e percebi certo burburinho em volta de minha mesa. À minha chegada, o casal, cuja nacionalidade eu não identificara, fazendo jus à honestidade e correção, me denunciava ao gerente, por ter bebido, comido e, sorrateiramente, fugido. Ao me ver, ele, pegando sua blusa, mochila e arrastando pela mão sua mulher, partiu apressadamente. Pensei, divertido: - Será que  pagou a conta?

O gerente, com cara de “não fui eu”, me pediu frias desculpas e seguiu para o bar dando ordens. Percebi um riso contido e realizador no rosto dos meus amigos atendentes, na pergunta solícita: - Mais uma imperial?

Meu pensamento é interrompido por algo que nunca presenciei antes... Parecia o toque de uma nota aguda, cujo executante não estava preparado tecnicamente, fazendo-a soar de forma grosseira. Uma moça oriental, me desperta das lembranças da noite anterior, com um grande, forte e entoado arroto. Não fosse sua fragilidade, poderia dizer que foi um “Dó de peito” dos tenores. Envergonhado por minha reação assustada, pude ver, ainda, um alemão dizer algumas palavras que não me soaram como gentilezas...

Estava no café da manhã, em Lisboa.

Um pouco irritado, lembrei-me da frase bíblica: “Se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o, e lança-o fora de si…”. Olhei o ambiente, observei o grupo de turistas, os olhares de cobras e, sem pensar muito, me retirei. O olhar pode mudar o mundo. Meu olho clínico, embasado pelo que chamo de bons modos e educação, estava contaminando o ambiente negativamente. Não consegui fazer parte do quadro parecido com figuras de livros de inglês...

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