quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O dia em que quase fui preso por roubo

Todos colaboravam com entusiasmo e presteza, enquanto eu, recostado à porta do açougue, em Bonfim (MG), olhava uma linda paisagem montanhosa daquela cidade que tanto gosto. Faríamos um churrasco.
Com olhos de conhecedores, meus amigos se empenhavam na escolha das carnes que eram depositadas sobre o balcão para pesagem feita pela simpática e tranquila atendente. Havia lombos, linguiças, picanhas, maminhas, costelinhas de porco, asinhas e filés de peito de frango. Tudo muito bonito e fresco. Olhando da porta, observei o envolvimento de todos e me senti meio inútil, ali parado, como se eles estivessem seguindo meus mandos. Resolvi ajudar. Apanhei no balcão uma peça muito bonita de uma picanha especial e levei-a para o carro, enquanto eram feitos os acertos finais. Saímos dali e fomos direto para o supermercado comprar as bebidas. Cervejas variadas, refrigerantes, sucos, vodca e cachaça para caipirinha. Compramos também o gelo e o carvão.

Tudo estava perfeito. Exceto minha percepção estranha no supermercado, que me chamava a atenção para uma pessoa, com a qual, me encontrava constantemente. Tive a impressão de estar sendo seguido ou observado, mas não dei muita importância a esse fato. Depois de tudo comprado, nos dirigimos para a bela chácara situada no centro de Bonfim, onde estávamos hospedados e faríamos o churrasco. Enquanto tirávamos as compras do automóvel, de longe, percebi certo alvoroço na rua em frente. Havia policiais conversando com os meus amigos, que apontavam para mim enquanto argumentavam. Aproximando, pus-me a ouvir.
Depois de muita conversa e explicações, disseram que estavam ali para prender um homem de barba e cabelos longos que fora visto entrando naquela chácara, pelo roubo de uma picanha. No caso específico, eu. Pensei que fosse brincadeira, mas, aos poucos, percebi que era sério. Aquela picanha que coloquei na caixa de isopor depois do transe daquela fotografia linda das montanhas de Bonfim – peça especial e, por isso, muito cara – era o motivo da “voz” de prisão. Não nos pertencia.

Depois de algumas discussões, ficou acertado entre as partes, que a picanha seria paga pelo valor fixado pelo interessado, em troca de não haver queixa. Respirei feliz e todos, muito bem humorados, se encaminharam para a área de lazer. Enfim, o churrasco. A picanha ficou, durante algum tempo, exposta no freezer, como prova do que, mais tarde compreendi, seria uma brincadeira muito interessante que avançaria até a madrugada do dia seguinte.

Na medida em que as garrafas se esvaziavam, o ânimo de todos se exaltava. A noite já chegara com seu frio intenso, normal na região, no inverno. Depois de todas as crianças serem acomodadas em suas camas, foi sugerido por algum dos presentes que deveríamos simular um julgamento, já que havia um suposto réu, acusado por roubo, e alguns advogados presentes. Contestei dizendo que não havia um juiz. Apresentaram um dos amigos – segundo eles, competente – como o titular daquela vara. O mesmo teria sido responsável pelo pagamento da picanha roubada, facilitando assim, minha liberdade. Me apresentaram também, dois promotores presentes, que aceitaram imediatamente o caso. Implantou-se um verdadeiro tribunal. Objetei, pedindo um advogado de defesa. Fui atendido. Me deixaram, inclusive, esperançoso, pois o advogado incumbido dessa função estava sempre em posse de livros, o que me pareceu ser uma pessoa letrada e versada nos segredos jurídicos.
Ilusão… Ao primeiro ataque, passando a palavra para a defesa, todos perceberam que ele estava dormindo com o livro nas mãos. Ao ser provocado, acordando, ele perguntou do que se tratava. Vi que seria o meu fim. Talvez uma prisão perpétua garantida. Enquanto isso a câmera fotográfica de uma grande fotógrafa presente, registrava todos os acontecimentos.

Isso me frustrava e entristecia. Me sentia em um mundo Kafkiano. Não havia motivo para tantos ataques. O juiz não se manifestava. Ou melhor, tomava a palavra somente quando seu copo estava vazio. Comecei assim, perplexo, a tentar perceber o mundo à minha volta. Eu estava ali em um tribunal proposto por amigos, sem uma defesa convincente e sem apoio popular. As opiniões prós ou contras eram confusas. Os jurados desatentos. As falas meio arrastadas. Pensei nas crianças que, sábias, já dormiam.

Meu advogado pareceu estar em um sonho de paz, vivido e envolvido pelas palavras de algum sábio, que ocupavam seu livro. Sua boca beijava e molhava a sabedoria impressa naquele inseparável livrinho. O juiz mirava o nada com olhar entorpecido pela noite fria que avançava. A promotoria me atacava, tentando provar a irresponsabilidade de meu ato ao infringir a lei surripiando uma picanha que, segundo eles, certamente já pertencia a outra pessoa.

Na solidão de meu íntimo, com os olhos lânguidos e voz embargada por um dia de muita confusão e dúvida, além da cerveja, claro, pedi a palavra. Queria me defender. Ninguém dizia algo que me desse segurança. O juiz, sábio, após pedir mais uma cerveja, ordenou que eu falasse. Os promotores assentiram com a cabeça. Meu advogado, com um ronco inesperado, mudando de posição, em seu sono profundo, pareceu concordar. Silêncio…

Durante um minuto ouviu-se somente o clique da câmera fotográfica e o fritar da
carne em uma chapa quente, que pedia certa urgência dos envolvidos naquele
caso, como se sua pena fosse a fogueira da inquisição. Os demais, que assistiam, entre um cochilo e outro, riam alto para, em seguida, desanimados, se recostarem nas poltronas e se enroscarem de frio com longos bocejos. Levantei-me e falei.

Comecei dizendo que, além de Kafka, o episódio me lembrava “O sonho de Makar” de Vladimir Korolienko. Que eu precisava contar a história, baseado em meu ponto de vista. Que julgassem depois.

Comecei pelo aspecto poético, pertinente ao encontro de amigos, que eu vivenciara ao mirar tão bela paisagem, na porta daquele açougue. Que eu fora tomado por um sentimento de gratidão. Que minha mente caminhava por estradas místicas e filosóficas e, não fosse o açougueiro esbarrar uma grande peça de um infeliz boi, sacrificado talvez há poucas horas, em minha camisa branca, eu não teria olhado para o interior do açougue e sentido como devemos buscar a generosidade e solidariedade entre os seres. Disse ainda que, embevecido, vi estampado no olhar do açougueiro, ao se desculpar pelo acidente, uma doçura  e pureza de quem é incapaz sequer
de colher uma flor, sensibilizado pela fragilidade de suas pétalas orvalhadas
naquelas manhãs frias, temendo violar as leis da natureza que nos fazem nascer,
crescer, murchar e morrer.

Ouvi um “Protesto” em voz oscilante, como num “bater de queixos” pelo frio. Um dos promotores dizia que eu tentava influenciar os jurados e ouvintes com artimanhas poéticas. Que minhas palavras destilavam veneno… O juiz, levantando-se, dirigiu-se à churrasqueira e, tomando em suas mãos um grande pedaço de carne, quase interrompido por um soluço abrupto, disse que eu deveria tomar mais cuidado com as palavras. Ser mais objetivo.

Tentei contestar, mas percebi que seria inútil. Parei, olhei fixamente para cada um
dos presentes e me calei pensativo. Minha mente, já em transe, viajou por um longo caminho sem saber seu objetivo. Agora, lembrando aquele dia, deixo minha voz seguir naturalmente o curso vislumbrado no torpor daquela noite fria:

–   O que há de melhor na vida são os pequenos momentos que, por sua espontaneidade, nos parecem ser planejados. Cada dia nos exige suas necessidades e urgências e vivemos uma eterna busca de paz. Mas sucumbimos à sucessão de prioridades impostas pelo cotidiano. Sentimo-nos inibidos, muitas vezes,  não conseguindo brincar com as coisas simples. Para “encenar” situações engraçadas que nos permitam rir e zombar da realidade. De nós mesmos. Mas o sonho, um dia se realizará. As pessoas acordarão de seu transe e perceberão que os valores – o certo e o errado – são mutantes e passageiros. Como nós também somos. Mas a essência, jamais. A boa vontade, por si só, não nos levará a parte alguma. Somente o verdadeiro amor às criaturas que nos cercam poderá nos fazer crescer e sentir que tudo vale a pena e que nem tudo nos torna felizes. Que não existe felicidade. Que existem momentos de bem-estar. Que o companheirismo, amizade e busca de melhores dias, nos levarão à vitória nesses tempos confusos.
Infelizmente, não disse isso. Acordando do transe, percebi que já havia um sono comandando o procedimento do juiz, promotoria, jurados e…

Meu advogado acordou e disse que começara a sentir sono. Que seria melhor ir dormir. Dobrou seu livro e, dando um “boa noite” desanimado, levantou-se cambaleante e sumiu na escuridão, abandonando seu cliente. Em silêncio, o juiz, dando de ombros, também desanimado, disse que na manhã seguinte daria o veredito. Vi-o, pensativo e incerto, examinando o caminho que o levaria para seu quarto. Com a lentidão dessas situações e passos indecisos, todos se levantaram e foram dormir. Ali, parado, ouvindo um lamento vindo da churrasqueira que mantinha em suas chamas suaves uma carne estorricada, permaneci por algum tempo, de pé, em silêncio. Observei as brasas que restavam entre as cinzas e vi os “restos mortais” de uma picanha roubada. Já não tinha cheiro. E estava queimada. Talvez fosse uma história seguindo seu curso. Confuso, de forma desconexa, pensei: Quando eu já estava cansado de esperar, o ônibus passou. Tava cheio, mas passou e eu entrei… Vi a cidade em sentido contrário.

Epílogo

Como não existe justiça sem uma parcela de injustiça, no dia seguinte, a sentença: ressaca, ressaca e ressaca. Café da manhã com muito riso.

Dedico esse texto, misto de realidade com ficção, às pessoas presentes naquela festa em momento tão feliz de minha vida: My son Thiago que, com sabedoria, dormia naquele momento… Graziela Aparecida da Cruz (a mais sonolenta de todos), Renato Domingos e Edelwais, anfitriões de primeira grandeza, Welton Flávio de queiroz e Vânia Queiroz (instigadores) Mary Lane Vaz (grande fotógrafa), Rogério Machado (que me sugeriu escrever esse texto), Eduardo, Martinha e filhos e ao Guilherme Gomes e
Maina Queiroz (os promotores). Agradecimento especial ao meu advogado, que conheci naquele dia. Não me lembro de seu nome, mas permita-me a brincadeira. Especialmente, agradeço  ao juiz Euler Oliveira que, compadecendo-se de mim, pagou a “fiança”. Se alguém foi esquecido, que me perdoe. O raciocínio não estava “lá essas coisas… ” Vida longa para todos vocês!!