segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Deus é pai...


Voltando de uma viagem, fui informado que havia um boato sobre minha possível morte, causada por um acidente ocorrido pela manhã. Fui assistir ao futsal de meu filho e alguém, ao me ver, disse feliz e sorridente: “Deus é pai”. Pensei em tom de brincadeira: certamente meu Pai. Mas será também do outro que realmente se foi?

Não sei…

Achei tudo muito divertido, mas não pensei mais naquilo. À noite, na hora em que descansamos para que os males possam acalmar seus ânimos e diminuir seu tamanho, tentando essa conquista, me veio ao pensamento: se fosse verdade, o que eu teria perdido com minha morte? Uma imensa lista, maior que milhões de “carneirinhos” contados, passou pela minha cabeça.  Pensei em aluguéis, impostos, telefonia, agenda de trabalho e outros compromissos financeiros… Percebi que, nesse sentido, eu não perderia nada. Outros sim. Perderiam. 

Pensei nas pessoas que, porventura, pudessem me amar: amigos, amores flertados e omitidos, recatados, assumidos, passageiros, eternos… Todo tipo de amor. 
Pensei também na família. Eles me perderiam. Não poderiam desfrutar da convivência comigo e das discussões ardorosas, que tanto me agradam. Nem dos momentos de brincadeiras, de música, pirraça, cervejas e fanfarronices.  Quase dormindo, ouvi um barulho que me fez ir à sala de minha casa apreensivo. Não havia nada. Somente sons da noite. Como sempre, ocultos. 

Voltei para a cama pensando no barulho que ouvi e me veio à mente o quanto desfrutamos de nossos sentidos (visão, audição, olfato, paladar, tato), sem lhes dar muita atenção. Pensei em tudo que eu não veria mais: a pintura bonita feita pelo “Senhor de todas as coisas” que não estava exposta em nenhum museu do mundo, porque era o mundo. As cores festejando os dias e noites de todos os lugares em que estou e não estou. Enciumados, meus ouvidos trataram de me lembrar que eu podia ouvir os sons da natureza, a risada de meu filho, os suspiros bem próximos do ouvido, de amores enternecidos… Meu olfato também reclamou sua participação nesses momentos em que percebeu cheiros suaves vindos de cabelos cheirosos e hálitos frescos que me enchiam de êxtase. E o cheirinho gostoso de bebês que nos recordam fases esquecidas da vida? O cheiro do café pela casa, na infância… Ah! Que saudade. 

Já provei muitos gostos. Comidas saborosas, cervejas geladas que refrescam e acalmam a alma, beijos molhados e quentes e… Sabores “proibidos”. O paladar não me reclamou nada. Meus olhos, pesando e me negando a luz, não permitiram que o tato se manifestasse em meu pensamento. 

Dormi e sonhei que tocava um violão e sentia os dedos passeando nas cordas diante de um sol ofuscante. A vista cansada podia ver cabelos esvoaçantes e deles vinha um suave perfume que me contagiava. Um gosto leve de um beijo delicado me veio à boca. Uma linda voz vinha de longe, daquela luz formosa  de cabelos esvoaçantes e cheiro de flor da manhã: Deus é pai. Você vive… Você vive… A silhueta tomava forma e eu percebi a beleza que não era masculina nem feminina. Porque era a beleza. 

Abri os olhos e, correndo as mãos pelo corpo, sorri e me lembrei: Deus é pai. Meu pai e daquele que se foi. Fechei novamente os olhos e agradeci àquela pessoa que veio ao meu encontro com essa mensagem.