terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Lá vai o herói, no Nevoeiro*

Pedi ao garçom que me trouxesse mais uma cerveja. Estava com amigos, em um barzinho no bairro Anchieta, em Belo Horizonte. Um menino de aproximadamente oito anos, vendendo bombons, dirigiu-se a mim e pediu-me que comprasse, para ajuda-lo…

Trajava uma camisa de pano claro, justa, muito bem cuidada, com calça comprida e sapatos simples. Uma criança bonita, muito limpa, com os cabelos bem penteados. 
Como não como doces, sugeri dar-lhe, em dinheiro, o equivalente a dois bombons, que ele comeria quando melhor lhe aprouvesse. Percebi um sorriso tímido e contido em seu rosto de criança e um aceno de cabeça, concordando. Pus a mão esquerda em seu ombro como forma de assentimento e confirmação do que propusera, selando assim, uma cumplicidade em meio ao barulho da noite. Vi-o seguir em frente, enquanto a conversa continuava animada. Piadas com fortes e autênticas risadas, entremeadas por risos forçados. Daqueles que, mesmo quando não achamos graça, nos comprazemos e
solidarizamos com o pretenso humorista. Sabendo que chegará a nossa vez, quando
precisaremos desses mesmos risos e aprovações. Enquanto isso, cervejas eram trazidas e servidas pelo, sempre atento, garçom. 

No entanto, enquanto falava, minha mente viajava por outros lugares, tentando acompanhar a criança, que seguia entre as mesas, cumprindo sua função de vendedor ambulante. Pensei, com certa dor, nas várias crianças que, naquele momento, andavam pelas ruas em busca de dinheiro para seus familiares ou exploradores comerciais de pequenos serviços. Enquanto isso, alguns  homens em uma mesa do lado, dando
demonstrações de despreparo para o convívio social, gritavam e perturbavam
todos os presentes. 

Eu, atento, olhava para as lindas mulheres presentes em minha mesa e para os amigos… Ria, bebia e, ao mesmo tempo, policiava e tentava organizar essa perturbação. 
Entre as mesas, à minha direita, surge novamente a criança e, olhando para mim, desembrulha um bombom. Aquele menino de olhos negros, me fitando, morde a guloseima e, novamente, fixa seu olhar em mim, dando mostras de gratidão e honestidade. Calei-me por um instante, como se ouvisse meus amigos… Sou muito treinado na façanha de esconder a neblina dos olhos. Ao lado, a gritaria do desatento grupo de homens, tornava-se insuportável. Virei-me novamente para a criança e vi-a seguindo seu roteiro comercial.

Tomei um longo gole de cerveja e pensei: “Lá vai o herói, no nevoeiro”… 

Nevoeiro de meus olhos, ocultado por uma atitude de vergonha. Enquanto houver crianças nessas condições, me recuso a falar sobre a boa vontade das pessoas, da política social, da religião… Dos valores humanos. Sorri, e sugeri que tomássemos mais uma cerveja. Sentença aprovada por unanimidade. 

Na manhã seguinte, relembrando a noite anterior, pensei: Como tornar esse sentimento melhor, se essa é a realidade? Lembrei-me de uma “Dama da noite”, que vive próximo à minha casa… Nos dias nublados, como hoje, ela, vaidosa, se prepara e, cheirosa, se porta como se fosse noite. Delicada, mesmo no meio da tarde que avança, ela exala uma fragrância suave e contagiante. De pureza e felicidade. Talvez eu consiga…

*Trecho de “Nevoeiro” – Música de minha autoria, com letra de Fernando Brant, composta para o Poema Musical “Chico Rei – Uma dança”.