sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A morte do roteirista*

Eu quase não assisto à televisão. Durante muito tempo não possuía um aparelho em minha casa. Da mesma forma, acho que a imagem pessoal e palavras sem atitudes que as comprovem, não valem nada. São vômitos que atingem quase sempre as pessoas inadequadas... Que miram a realidade por meio de uma vidraça, como diria Gibran Khalil Gibran.

Há algum tempo, no Rio de Janeiro, após um dia de reuniões, tive uma noitada ótima, com cerveja e bom papo, no Leblon. Chegando ao hotel, já pisando um pouquinho alto, liguei o televisor. Em princípio, com curiosidade de adolescente.

Mudei de canal várias vezes e, aos poucos, comecei a ficar entediado. Velhas fórmulas repetidas pelo cinema norte-americano com um grande esmero técnico, porém sem originalidade. Pensei: o que adianta o que eu penso sobre uma indústria que domina o mundo? A resposta veio logo: para eles, nada. Para mim, tudo. Mudei de canal...

Programa de auto-ajuda (?). O sujeito liga, expõe seus problemas e alguém (supostamente deus) lhe diz o que fazer. Em outro canal um pastor vociferando para uma multidão, ditando regras de conduta, para se estar mais próximo de Deus.

Continuo...

Agora é a vez do “Grande irmão”. Me recuso a falar e escrever em inglês, pois li e reli várias vezes o livro “1984”, de George Orwell e acho isso muito sério. Heróis à parte, dirijo-me à janela e vejo lixeiros coletando o lixo, próximo ao hotel. Penso: meus heróis nacionais. Limpam a sujeira que deixamos e perseguem nosso rastro de descuido. Desisto da TV e entro, no notebook, nas redes sociais. Descrença...

Alguns se tornam gênios a partir de frases infundadas, colocações sociais descabidas e sem embasamento sócio-cultural. Outros tentam se impor por um pseudo-conhecimento da política e realidade atual do mundo. Sorrio e penso: isso me parece mais atitude de fascistas... Autoritarismo e controle ditatorial. Nesse caso, de ideias. “Vaidade das vaidades”.

Mudo de pensamento. Sinto que também estou me embarcando nessa...

Ouço o barulho do caminhão de lixo e penso: quem cuidará desse lixo que povoa as ideias, maltrata o pensamento e destrói a sensibilidade? Nos filmes mataram os criadores de histórias. Na televisão, pesquisas de audiência governam os roteiros. Notícias tendenciosas caminham lado a lado com interesses políticos. As palavras brotam nas redes sociais com irresponsabilidade. Resumindo: “irmão desconhece irmão”. Desligo tudo e abro uma cerveja.

Acordo com a luz do sol em meu rosto. No criado (este sim) mudo, garrafa de cerveja cheia, e copo vazio. Resolvo estudar as músicas para o show “Três estações – Caymmi”, em Portugal. A primeira que eu ouço, me dá um tapa que dói até hoje. É o parceiro e amigo Fernando Brant que, em uma de nossas parcerias, diz: Carpe Diem.

Ouço o Amaranto cantando e penso: ainda há um roteirista que conduz nossa vida e que povoa nosso coração. Pode ser, para alguns, Deus. Para outros: Buda, Maomé e tantos outros. Para mim o Universo (Um em diversos). Meu coração já está mais tranquilo. Compreendo que com esses roteiristas não podemos brincar. Eles criam papéis intrincados, tramas complexas e ainda dão liberdade para seus atores improvisarem. Feliz, continuo os estudos.

*Escrevi esse texto após assistir, novamente, ao filme “Primavera, verão, outono, inverno... e primavera”. Dirigido por Ki-duk-Kim, pensando em José Tavares de Barros (in memorian), Paulo Vilara, Mário Alves Coutinho e Paulo Augusto Gomes - Os professores.


P.S. Também não vou aos cinemas há algum tempo. Não suporto os piqueniques que misturam nas salas o cheiro de pipoca com sanduíches, o barulho de papéis e de celulares. Assistir a um filme para mim é uma experiência sensorial.

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