segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Meus analistas, os cabeleireiros

Há alguns anos atrás, eu cortava os cabelos com um profissional muito competente, com características pessoais muito peculiares e engraçadas. Ao saber que eu era músico, ele me disse que gostava muito de música e sonhava poder tocar um instrumento. Por isso, o diálogo, a cada ida minha ao salão, se estendia por longo tempo. Um corte de cabelo durava, em média, duas horas.

Pessoa muito simpática ele me contou sobre sua vida difícil e como fora criado sem a presença de seu pai. Tornou-se um amigo. 

Muito inquieto e vaidoso, ele, enquanto cumpria seu ofício de cabeleireiro, aos poucos, ia se descobrindo no espelho. No ápice de sua descoberta, se encantava com sua própria imagem e, ao se admirar, esquecia-se de sua função, ajeitava os próprios cabelos e sorria um sorriso cinematográfico. Quando ele percebia sua atitude, olhava para mim como se houvesse sido descoberto em grave delito e dava um gritinho agudo, voltando para sua tarefa. Mudei-me de região e nunca mais o vi.

Morando em outro bairro tive que me adaptar a um novo cabeleireiro. Esse, competente e famoso, me agradava muito pela sua técnica. Mais uma vez, o que me chamou a atenção foi sua postura profissional. Sempre gostei de profissionais que se respeitam e se valorizam sem prejuízo da personalidade ou excesso de egocentrismo para os que estão à sua volta. Este, um verdadeiro artista, se portava como tal. 

A primeira vez que entrei em seu salão foi algo fantástico, que me lembro com muito gosto. Fui recebido por um jovem recepcionista muito simpático e delicado, que me conduziu a uma outra sala, onde um rapaz me aguardava. 

Este, por sua vez, me indicou um acento dizendo que iria lavar meus cabelos. Durante alguns minutos ele acariciou meus cabelos com um shampoo muito cheiroso. Em alguns momentos, achei que ele, com malícia, abusava um pouco da massagem na região da nuca. Isso me fazia arrepiar e ele olhava ensimesmado e sorria um sorriso matreiro, vaidoso e inquiridor. Houve um momento em que ele, malicioso, quase riu. Percebi em seu semblante, pelo espelho em frente, um conflito entre o riso e boca. Um se opondo ao outro, como se lutassem para obedecer ou desobedecer seu dono. O que se ouviu foi um grasnado fino, sofrido e contido, que o desconcertou fazendo seu rosto enrubescer. Após todo esse processo ele me conduziu à sala onde seria feito o corte do cabelo. Pensei que ele era o cabeleireiro… Mas não. Pediu-me para aguardar. Que em breve eu seria atendido. Fechando uma espécie de cortina que separava o ambiente, deixou-me em uma semiescuridão.

Fiquei ali esperando e imaginando o que me aguardava… Depois de alguns minutos, com certa violência, alguém puxou a cortina e entrou. A cena foi tão inesperada e imprevisível que quase aplaudi a entrada do cabeleireiro. Como num abrir das cortinas no teatro.
 
Sem se apresentar ou me olhar nos olhos, o cabeleireiro fazia tilintar as tesouras no ar, enquanto sugeria como deveria ser o corte. Não como eu gostaria que fosse. Me perguntava frequentemente: 
              
      - Fashion… Que tal?

Enquanto cortava meus cabelos, envaidecido, com breves olhadelas no espelho, dava um sorriso e me falava de Paris, à qual ele se referia em francês. Me lembrei do filme “Paris Texas” de Win Wenders e do Japão, um lugarejo, acho que situado a oeste de Minas Gerais. Em silêncio ri maliciosamente.

Frequentei durante muitos anos seu salão. Com o tempo ele começou a me falar de coisas simples, de sua infância e, aos poucos, abandonou as inserções do francês em suas frases de efeito. Ele viveu, como todos nós, em um tempo de mais proximidade com as pessoas, onde todos se comunicavam com frequência e eram responsáveis por seus vizinhos, familiares e colegas de escola… Aos poucos descobri um homem frustrado com a vida, com as projeções que fizera para o seu próprio futuro. Gostava muito de conversar sobre música e, na última vez em que estive com ele, antes de se aposentar, após uma conversa (corte de cabelo) muito demorada, na saída eu lhe disse, lembrando uma música de Gonzaguinha: 

- “E a vida o que é? Diga lá meu irmão…”. 

Ele sorriu um sorriso delicado, talvez triste e em voz baixa, como se meditasse, disse: 
             
- Não sei. 

Em seguida levantou os olhos, sem levantar a cabeça e, sacudindo todo o corpo, juntando as mãos em um gesto de oração, me disse: 
            
- Ai meu Deus! Que pergunta difícil!!!

Voltando as costas para mim e olhando-se no espelho, falou como se pensasse alto:
             
- A vida é algo que recebemos sem pedir. Que nem sempre nos dá o direito de escolha e nos obriga a viver toda a sorte de experiências e incompreensões. Mesmo assim, com o tempo, gostamos tanto dela que temos medo de ir embora. 

Enquanto ele se admirava no espelho e alisava sua sobrancelha, repassei em minha memória as suas palavras e, lentamente, fechei a cortina, deixando-o em uma semiescuridão. Não o veria mais.


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