sexta-feira, 13 de abril de 2018

O sorriso do homem sem olhos

Mudança, dizem, em todos os sentidos faz bem. Acho que, timidamente, acredito nisso... Há algum tempo, em um momento estranho da vida, em que pressentia coisas positivas me rondando, a conspiração da engrenagem que gira o mundo me fez mudar de casa. Em uma madrugada, depois de algumas cervejas, buscando, no escuro, as fechaduras da nova casa, entrei em um beco que me conduziria a toda sorte de experiências. Ao atravessar aquele corredor escuro, fui recepcionado pelo príncipe Míchkin de Dostoievski, pelo Harry de Hermann Hesse e, irônico, amaldiçoei todos eles. Mesmo assim, com um olhar convicto e romântico, pude perceber  a lua, com um rosto suave e iluminado, alheio aos acontecimentos do “mover do mundo”, me olhando, enquanto era festejada pelo bailado das estrelas à sua volta. Voltando ao lado escuro, pensei:  

Sempre gostei da simplicidade nas pessoas. Em minha opinião a simplicidade soma desapego e autenticidade, embasada por ingenuidade e leveza. Gosto do silêncio e, até mesmo, da insegurança. Às vezes penso que a insegurança nos torna mais prudentes e respeitosos.

Foi assim que, observando o comportamento das pessoas, “in loco”, conheci os costumes pelas madrugadas, nas praças e ruas de Belo Horizonte. Vi alguns “perdidos” em bares abertos até o arder dos olhos, pela manhã, e casais que povoam a Praça da Liberdade em longas noites e que alimentam suas inquietações com incontáveis garrafas de cerveja. Vi de tudo...
Depois de longos dias, noites e buscas, concluí que chegara a hora de atravessar aquele corredor escuro, em sentido contrário. Pensei... Pensei? Não.

Olhei para trás e vi algo bom emanando daquela escuridão. Era o coro formado por amigos (conhecidos e desconhecidos) sugando de dentro de mim uma voz calma e resignada, vinda lá da região desconhecida do pensamento. Todos apontando para um trono situado na simplicidade, na escuridão e na solidão que me vigiava. Sentado nesse trono, um homem idoso com rosto de criança. Sorri e prossegui a travessia. O coro, em vigília, voltado para o trono, cantava uma linda melodia. Antes de girar a chave que selaria minha estada naquele “pedacinho de mundo” de minha existência, voltando meu olhar para o passado recente, olhei para o homem com cara de criança. Ele, sorrindo um sorriso terno e sábio, acenava para mim. Não tinha olhos. Vi, no buraco de seus olhos, a vida passando... Meus lábios foram tomados pelas belas palavras do sábio de Atenas:

“Quanta gentileza há nesse homem. Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me, conversando mais vezes comigo. Em duas palavras: uma excelente pessoa. E, hoje, que generosidade demonstrou no modo como lamentava a minha sorte! Pois bem, vamos! Obedeçamos-lhe... E que me tragam  o veneno, se ele já estiver moído: se não estiver, que o encarregado isso o faça”*. Revitalizado, fui em frente. Mudei-me de casa.

Texto da série “Impressões".
* Sócrates em Fédon (Platão).