quinta-feira, 26 de abril de 2018

Tudo valeu a pena...

Toquei o interfone e, como sempre, esperei intermináveis minutos para ser atendido. Subi as escadas e, uma vez mais, encontrei uma porta aberta sem ninguém à espera, naquela sala. Acostumado com  esse procedimento de vários anos atrás, entrei e me sentei. Mais alguns minutos… Surge um homem alto e grisalho, já mais magro, apertando os óculos com lentes grossas, entre as sobrancelhas. Cumprimentou-me como se tivéssemos nos encontrado na véspera. No primeiro instante de timidez olhou-me e com uma exclamação disse meu nome. Novamente eu estava ali, naquela sala, olhando para o meu amigo e primeiro professor de violão, Heber Alvim. Em seu apartamento. Em Divinópolis.

Depois de breves comentários sobre o tempo sem nos encontrar, ofereceu-me um café e me conduziu à cozinha. Acompanhei-o, enquanto ele me contava de suas caminhadas até o bairro Niterói e justificava o tempo de feitura daquele café morno. Menti dizendo que estava muito bom e disse-lhe que trazia alguns CDs gravados por mim e um DVD onde escrevera sobre sua importância em minha vida musical e pessoal. Pegou-os e, sorrindo, sugeriu que seria melhor tocar. Entregou-me um violão Di Giorgio que eu conhecia há muitos anos, com as cordas bem desgastadas…

No ano de 1971, aos nove anos, encontrei-o pela primeira vez. Bati na porta de uma sala situada no centro de Divinópolis e depois de longa espera, sorridente me cumprimentou acenando para que eu entrasse, enquanto pressionava os óculos entre as sobrancelhas. Pediu que eu tocasse algo. Acho que toquei “Noite feliz”. Após ouvir atentamente, disse que poderia me ensinar algumas coisas. Ensinou-me muito. Não só sobre o violão. Até acho que me ensinou mais sobre a música. Sobre a importância do sentir e valorizar os sentidos. A não me empolgar com o estrelismo, mas buscar o conhecimento e assimilar toda forma de expressão musical para, em seguida, deixar a sensibilidade me conduzir. Aprendi ainda a ter um posicionamento que costumo chamar de “medo” da música, embora, na essência, seja respeito e cuidado. Assim foi meu primeiro contato com o violão de “escola”.

Mais tarde, mais “vivido”, reencontrei-o e perambulamos pela noite de Divinópolis. Creio que deve haver ainda alguns bares que guardam os segredos de longas conversas musicais avançando pela madrugada. Onde dialogávamos com Bill Evans, Baden Powell, Oscar Peterson, John Williams e tantos outros. Conheci-os tomando cerveja em companhia de amigos que marcaram minha vida nessa cidade tão importante para minha formação. Aprendi muito sobre a música, o sonho e o viver.

Respirei, fechei os olhos e toquei uma composição de Baden Powell, que eu sabia que ele adorava. Eu conhecia seu gosto musical. Me apresentara os maiores nomes da música mundial. Terminei e, ainda com os olhos fechados, ouvi sua voz me dizendo:

- Está muito bom. Tocou bem.

Abri os olhos e contemplei um semblante de aprovação. Estava frente a frente com o violonista Heber Alvim... Meu professor. Quem produziu meu primeiro recital, junto com seu irmão Heraldo. Tudo valeu a pena. Que saudade!!




Nenhum comentário:

Postar um comentário