segunda-feira, 21 de maio de 2018

Que ódio!!

Ontem odiei muita gente. Todos os dias eu odeio. Quase sempre gente que não conheço. Odiei uma motorista que buzinou exageradamente para uma senhora de aproximadamente 80 anos, que atravessava lentamente a rua, na faixa de pedestres e odiei um motoqueiro também amante da buzina de sua moto. Em toda esquina buzinava. Pude ouvi-lo durante muito tempo enquanto se afastava. Odiei um senhor, aparentemente saudável, que me pedia em tom autoritário, que eu lhe desse algum dinheiro para o almoço. Detestei um senhor que, no caixa do supermercado, deixou seu carrinho de compras à minha frente, me impedindo de passar. Odiei um outro que, no restaurante, mastigava de boca aberta... Mastigava pouco e só comia carne gordurosa. Sua “lambança” me atraía. Não conseguia deixar de olhar. Odiei uma linda mulher que, também no restaurante, me sorriu cumprimentando e depois me negou todos os seus olhares. Odiei a menina do caixa pela falta de atenção ao me perguntar enquanto conversava com outra:

- Débito ou crédito? Respondi:
- Débito.  – Retrucando, ela perguntou:
- Crédito?

À noite, em casa, já deitado pensei no quanto odeio. É muito. Brincando com o pensamento imaginei: se fosse fazer a confissão para a primeira comunhão, teria muito assunto com o padre. Lembro-me de me ver em apuros quando fui perguntado pelos pecados que cometera...

Olhei para o teto e pensei: Que ódio. Estou sem vontade de dormir...

Acordei animado e lembrei-me de um sonho.  Estava sendo julgado por meus ódios. Depois de expor todos os momentos em que me senti assim e quanto mal já havia tramado contra meus ofensores, o juiz se dirigiu a mim e disse:

- Seu caso me lembra vários julgamentos. Ontem mesmo recebemos uma   mulher que, ao se dirigir à sua casa após saber da morte do marido, disse ter odiado e ofendido uma senhora que atravessava lentamente a rua. Outro, motoqueiro, disse ter sido ofendido por um policial que julgava todos os motoqueiros irresponsáveis. Que começara a buzinar em todas as esquinas com medo de acidente e que odiava os policiais. Um outro disse odiar o mundo. Que vendia “canudinhos” no sinal e descobrira que pedindo esmola ganharia mais. Um outro, com o nariz empinado me disse que odiava o sistema e as pessoas. Que trabalhara muito e, agora aposentado, ainda era obrigado a fazer compras de supermercado. Mas que não era mais obrigado a trabalhar para os outros. Que não ajudava em nada. Mesmo parecendo mal educado. Um outro, disse que na infância fora ensinado a comer muito. Que criança tinha que ser rechonchuda. Que comia com sua mãe de “chinelo em punho” dizendo que se não comesse bem (muito) ficaria doente e morreria. Que crescera sem escola e educação. Mas se gabava de ter dinheiro e sempre muita fartura. Que não conseguia viver sem sentir ódio pela mãe, pois tinha problemas de colesterol alto, diabetes...

Continuando, o juiz me disse que, um pouco antes de mim, ouvira uma linda mulher dizer que bastava um sorriso para uma pessoa desconhecida, para ser mal interpretada. Que aprendera com sua mãe que cumprimentar as pessoas e  sorrir era educado e simpático. Mas era mal interpretada e isso a fazia sentir ódio. Disse-me ainda que recebera uma outra com a qual fora difícil um diálogo. A tudo que ele perguntava, ela respondia também com uma pergunta. Falou que desistira. Que talvez isso seja um problema de nosso tempo: Transtorno de Déficit de Atenção. Dera um veredito favorável, pois percebera que ela era muito jovem, vivendo as confusões desse século e que ele estava ficando desconcentrado. Maluco. Que o veredito era... Acordei.

Depois de relembrar todo o sonho, sem saber o final, com curiosidade e muito ódio, espreguicei e involuntariamente gritei. Pois bem. Mãos à obra. Que todos, hoje, possam me ensinar a ser bom por meio de tudo que é odiável para mim.
Melhorou o meu dia.



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