segunda-feira, 4 de junho de 2018

Santa Tereza*

Comprei uma cerveja no “Bolão” e atravessei a praça lentamente, observando as pessoas e o céu lindíssimo, com uma lua quase cheia. Passo a passo, aproveitei cada instante. Entre um gole e outro, observei uma linda mulher que me olhava e, desapontado, vi seu namorado chegar e abraça-la. Sorri para uma linda criança ao lado de sua mãe grávida e imaginei o quanto abomino a possibilidade de se negar um sorriso a uma criança. Sorri, afaguei seus cabelos e segui minha “Travessia”.
No final da praça, garrafa vazia. Pensei ironicamente: a embocadura está em dia...

Me detive algum tempo observando as casas e as pessoas que passavam. À minha frente, um carrinho de sanduíches incrustado na parede, em forma de loja e um velho portão de ferro com letreiro indicando ser o banheiro... Em uma mesa de plástico branco, um casal se olhava em silêncio. Poucas palavras e olhares tímidos comandavam a relação. Pensei no chamado “déjà vu” e, recostando-me a uma árvore, tal qual um voyeur, fiquei observando. O sino daquela bela igreja tocou forte e, como em um filme romântico, vi um sorriso brotando daqueles semblantes, enquanto suas bocas se encontravam.

Já com um gosto saudoso de cerveja na boca, empreendi o caminho de volta. Bem mais rápido. Munido de provisão, dirigi-me à porta da igreja e, da calçada, pus-me a observar braços abertos à minha frente como se quisessem me envolver. De meu ponto de vista e ângulo, arquitetura perfeita. Quase entrei. Mas minha auto censura e a garrafa de cerveja em minhas mãos, sugeriram que eu me mantivesse à distância.

Voltei para a praça e postei-me quieto, observando a lua, os casarões... Meu telefone tocou. Era um querido amigo que combinara me encontrar naquelas paragens. De carro, fomos ao Godofredo encontrar outro amigo afeito às caminhadas, trilhas.

Talvez à procura de caminhos, como eu.

Encontro tímido, rápido, mas verdadeiro. Com pessoas que nos fazem bem.
Na volta, cruzando as ruas de Santa Tereza, lembrei-me de amigos que povoam esse bairro tão peculiar, de Belo Horizonte. Lembrei do Clube da Esquina, dos Borges, Guedes e pensei em Gonzaguinha: “E a vida... O que é, diga lá meu irmão”. Nessa infinidade de experiências, vividas em apenas duas horas, pensei sorrindo: Não sei. Mas “É bonita, é bonita e é bonita”.

Enquanto me dirigia para o outro lado da cidade, sorri silenciosamente e pensei: a “Travessia” é segura. Quem conduzia o automóvel e conversava animadamente comigo, era o querido Fernando Brant. Noite boa.

*Escrito há alguns anos, quando fui com Fernando Brant, ao lançamento do livro “Pelos caminhos da Estrada Real”, de Felipe Cerquize.