terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ombligo de la luna


Como uma procissão de solitários fiéis, seguiam seres preguiçosamente entregues ao alheamento, absorvidos pela necessidade de trabalho, em meio aos curiosos peregrinos, sedentos de história e lazer. O Sol, raivoso, conduzia as sombras indecisas e inseguras, quanto ao caminho que deveriam seguir. Curiosamente, à sua esquerda, a Lua se submetia àquele dia mal humorado do sol escaldante, enquanto sentia a curiosidade rondando sua beleza e tentando desbravar tempos distantes. Atento à indecisão daquelas sombras, amparado por um imenso chapéu, seguia eu, com olhar observador, aquela romaria de uma correção de seres humanos formigados, irrompendo rumo ao pico daquelas lindas e poderosas pirâmides. 

À direita, a Lua. À frente, o Sol.

A cada passo, refletido no suor de minha testa, uma interrogação se erguendo em meu pensamento. Porque dependemos tanto do passado e nos preocupamos tão pouco com a construção do futuro? Nossas ações no presente não serão as consequências do que no futuro chamaremos de passado? 

Em meio ao xadrez mental que me envolvia, fui atraído por um olhar diferente. Por detrás dos óculos escuros percebi uma senhora aparentemente descendente de índios. Olhar austero e rugas profundas em um rosto habituado ao mal humor do sol daquelas paragens. Furtivamente contemplei-a de uma distância segura. Vendia algumas peças que me pareceram bijuterias fabricadas em série, mas que tentavam seduzir com ares falsos de artesanato nativo. 
Pareceu-me tão alheia a tudo… Ou foi o sol que me influenciou com seu calor, me levando ao estado de transe? Andava a certa distância usando óculos muito escuros e observando aquela senhora que, com o movimento dos olhos, apenas, me seguia. Passei por ela e em um breve instante nossos olhos se cruzaram. Os meus, escondidos. Os dela, expostos ao sol, indagadores e expressivos, traziam a expressão daqueles pelos quais o mundo passa. Sem deixar traço de passado ou perspectiva de futuro. Vida vivida no dia a dia da sobrevivência. Como em uma estação, quando perdemos um trem, mas aquietamos ao saber  que ele retornará, em um eterno ir e vir.

Segui adiante tentando esconder o desejo de olhar para trás. Fora tocado por uma força estranha que me impelia ao sentimento de invasor incauto, como se meu pensamento houvesse sido desvendado. Enquanto isso Sol e Lua tentavam uma negociação com o vento que viera interceder por aqueles que tentam uma subida ao passado, donde se pode ver o mundo e tentar compreender os enigmas do tempo. Onde águias comem cobras, pousadas em cactos, mostrando os sinais de novos tempos, de uma terra prometida. 

Segui adiante nos dias, sem esquecer aquele olhar…

Em meio à multidão, qual um romeiro crédulo, caminhava com toda minha incredulidade, rumo ao centro da catedral. Em fila, mutilados, aleijados, doentes graves, idosos e crianças seguiam, resignados, em direção à fonte da esperança, com nascente na caridade e na fé. Eles, buscando consolo e benção para os seus dias. Eu, buscando um assento para o descanso depois de uma longa caminhada. 

Enquanto um batismo trazia às famílias a certeza das portas divinas sendo abertas aos anjos que, chorando, levavam seus pais ao êxtase e júbilo, aproximou-se de mim um homem simples, mal vestido e muito tímido. Tentou falar comigo… Eu, inquieto, disse-lhe que estava orando, meditando. Como se aquele lugar não se prestasse a encontros casuais de almas que habitam o mesmo mundo e camuflam suas dores na projeção de crença naqueles que se dizem semelhantes. Com aspecto envergonhado e tímido, sem jeito, afastou-se lentamente. Acompanhei-o por trás dos óculos escuros, esconderijo para todas as minhas sombras. Em direção à sacristia, foi recebido pelo padre. Olhei-o de costas por um instante e fui abatido por uma grande vergonha. Daquelas que nos mostram nossa insignificância e incapacidade de compreender o mundo, a pobreza e a doença daqueles que nos rodeiam. Senti-me como um hipócrita mirando os males do mundo e a miséria das pessoas, pela vidraça. Protegido do encontro com aqueles que representam o que há de melhor nessa vida: a aceitação de um destino, quase sempre escrito por pessoas alheias à compreensão de humanidade e respeito. De justiça. A crença e luta por dias melhores.

Envergonhado, percebi que sou um passageiro de um trem que segue rumo ao futuro, sem construir nada ou contribuir para que tenhamos um passado melhor…

Agora é tarde. O homem já vai longe. Na rua, um sol raivoso iluminando aquela multidão que me olhava fixamente com seus olhares austeros. Trazendo rugas profundas em seus rostos habituados ao mal humor do sol daquelas paragens. 

Em todas as esquinas e cruzamentos da vida, no abrir e fechar dos olhos, mesmo por detrás dos óculos escuros, observo os dias e construo um pequeno pedacinho de esperança para a posteridade. 

E sigo adiante nos dias, sem esquecer aqueles olhares…