sexta-feira, 12 de abril de 2019

Casarões...

Sempre gostei de casas antigas. Talvez pela lembrança de um casarão onde vivi a infância, em Nova Serrana. Como o da fazenda de meu avô, na medida em que fui crescendo, ele diminuía seu tamanho e imponência... Criança é assim. Enxerga tudo grandioso. Vê o mundo com os olhos da degustação e do desejo de aproveitar.

E brincar, brincar...

Nesses pequenos casarões desenvolvi minha capacidade de observação. Descobri que o cuidado com as pessoas, animais, natureza - tudo - é uma atitude que nos faz crescer e cooperar para que o mundo seja melhor.

Quantas vezes à noite, já deitado,  escutava o mundo misterioso e olhava o nada, naquele escuro que me amedrontava com suas sombras. Quanto barulho de animais noturnos… O som das goteiras em latas estrategicamente posicionadas, entoando melodias afinadas pela intensidade da chuva, que também determinava o seu ritmo. Trovões esbravejando e relâmpagos desafiando as palhas benzidas no Domingo de Ramos. Foi assim que cresci.

À espreita…

Aprendi a importância do sentir o mundo e do cuidar de todos os seus moradores. Do desenvolvimento de todos os sentidos para perceber a natureza. Descobri que cada cidade tem seu próprio som, suas cores , cheiros… Aprendi a me defender também. Senti que enquanto eu avançava na vida, me tornava um pontinho nessa multidão de almas que vivem sem saber porque, e temem a única certeza que possuem.

Durante as crises de insanidade, quando tento compreender o incompreensível, percebo que em todos os momentos alegres, tristes ou de preocupação, de medo ou doença, há algo que nos observa e nos proteje. Cuida. Para alguns, um anjo. Para outros, Deus. Para mim, a soma de todos os sentidos que, em sintonia com o Universo, seguindo uma evolução natural, nos abastecem de força, velam e nos acompanham até a longa jornada do desconhecido.

Simplesmente somos…

Filhotes perdidos em uma relva que visita a frente de um casarão, onde residem mistérios, sonhos e lembranças. Seres que passeiam pelo vasto mundo de poucos metros, sob a vigilância de olhares comprometidos com as causas do cuidado e da responsabilidade. Do preparo para a eternidade da continuação. Prestes a se tornarem pontinhos, talvez invisíveis, nessa multidão.

Da vida…

Foto: Márcio Aleluia





















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