terça-feira, 29 de outubro de 2019

Simbiose

Com os olhos fixos em um celular, eu acompanho as atrocidades espalhadas pelo mundo, mescladas com temas agressivos sobre a vida humana. Políticos inescrupulosos, com uma pseudo-sapiência, semeando com bravura seus feitos em prol dos seres que habitam o mundo. Normal. Todos tentando se impor sobre os que pensam de forma diferente. Palavrões escritos e propagados de forma assustadora e de forma despudorada. Desejo de morte para uns, em detrimento de outros. Discussões quilométricas onde os expositores são profundos conhecedores de qualquer tema político, artístico, estilístico... Tudo me conduzindo à angústia existencial e à dúvida, mas me dando a segurança necessária para seguir na vida, entre quatro paredes. As coisas que me parecem boas, são poucas e, às vezes, utópicas ou sensacionalistas. Mas, tudo bem. Esse é o meu mundo. Desligar-me dele poderá me afastar da realidade e me expor a um mundo que desconheço.

Mas estou cansado...

Com muito esforço, amedrontado, desligo tudo. Inclusive eu mesmo. Meus olhos ardem. Relutante, lutando contra o medo de sair do mundo, decido caminhar um pouco pela rua.

Meus olhos habituados à pequenez da tela de um celular, não conseguem mais olhar o dia, o sol, a luta dos últimos pingos de chuva se digladiando no ar. Tampouco uma senhora no sinal, que se aproxima dos veículos pedindo uma ajuda. O pulsar do coração dos dias pacientes, contados e marcados por minutos, no piscar de um semáforo. O açougueiro que, enquanto trabalha, flerta com a moça que caminha com seu cachorro na calçada, sem se preocupar com a faca extremamente afiada que tem em suas mãos. Os lixeiros cantando e correndo. Os carros parando para uma senhora atravessar lentamente a rua. Embaixo de uma marquise, um mendigo abraçado com seu cachorro, dividindo com ele os restos de uma comida horrível, sobre papelões.

Que coisa ridícula esse mundo. Insuportável e desinteressante. Pior ainda: esqueci de levar meu celular. Só consigo enxergar na tela de um celular, de onde vejo as imagens que fotografo e depois compartilho com todos. Mas “a olho nu” é muito desagradável. O calor aumentando e me sufocando, me fazendo suar. Que coisa irritante. E agora?

Cansado, sentado em uma pequena praça, começo a olhar o movimento dos carros, as pessoas... Talvez volte a chover. Um pouco fatigado, percebo as sutis mudanças na claridade do dia. Nuvens obrigam a luz a se afastar e, pouco tempo depois, cedem espaço para um poderoso sol. Mas não dura muito. Gotinhas quase invisíveis, me expulsam daquela meditação. Uma criança ensaiando seus primeiros passos para a dança da vida, cai e chora. Uma babá aflita desliga seu celular e corre em seu socorro. Já consigo enxergar um pouquinho de vida vivendo. Mas é confuso. Não estou acostumado. Escuto o choro e me lembro daquelas pessoas que me dizem todos os dias que são felizes. Que sorriem em lindas fotos me mostrando os prazeres da vida. Elas me mostram as delícias da noite, restaurantes finos, amigos... Algumas até cantam e tocam, mesmo eu não podendo ouvi-las. E aqueles que me convenceram de suas verdades? Onde estão todos...

Começo a perceber que a cidade pulsa e tem sonoridade própria. Que as pessoas ocupam seus espaços e a conduzem com um ritmo contagiante. Que o céu, às vezes nervoso, é lindo no crepúsculo, com sua mistura e contraste de cores... A criança, já ao meu lado, brinca comigo. A babá, uma vez mais, fala ao celular. O que fazer? Ironicamente, penso que só sei dar um “like” ou fotografar, mas aqui não adianta. Ela sorri e quer que eu interaja, brinque com ela. Cuidadoso, comigo mesmo, começo um diálogo gestual suave. Às vezes, olho para a babá temeroso de ser mal interpretado por ser um estranho falando com a criança. Ela não se preocupa. Segue, com agilidade, digitando ininterruptamente. A criança sorri e corre para longe de mim. Olha-me, cobre o rosto com as mãos, e retorna correndo e rindo. Descubro que o diálogo é muito simples. Divertido. Nesse corre corre atabalhoado, entremeado por palmas e risos fortes, num abrir e fechar dos olhos,  já é quase noite. Luzes vêm brincar também. Buzinas de automóveis e roncos de motores entoando uma sinfonia e rogando para chegar às suas casas, destinos, rapidamente. Bares celebrando mais um dia no tilintar de copos. É o mundo palpitando e seguindo a sua construção...

A babá, sem dizer nada, passa por mim e, tomando a criança no colo, segue sua jornada. Posso vê-la, à distância, com olhar de satisfação, atravessando a rua enquanto consulta seu celular.

Um vento suave misturado com os sons às vezes agressivos, às vezes cansados e aflitos, me fazem relaxar. Meu olfato percebe cheiro de fumaça, enquanto olho para as ruas. Levo a mão à testa e sinto uma pele oleosa. É o calor... Percebo que sinto sede e fome. Estou vivo. Não posso mais voltar àquele mundo de quatro paredes e tela luminosa. De lá, sei que não acreditariam em minhas histórias. Eu seria aquele que se desviou do caminho.

Lembrei-me de Aristocles, o homem que alguns chamam de ombros largos: “Tente mover o mundo, mas comece movendo a si mesmo.” Sinto as pernas cansadas... Melhor dar uma volta e ver mais a cidade.

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