sábado, 1 de fevereiro de 2020

Numa noite em Belo Horizonte. E a chuva caiu...

Observava uma ansiosa água buscando uma saída de seu sufocamento subterrâneo, provocado pela invasão de grossas lágrimas que vinham do céu. Entre uma cerveja e outra, eu percebia o movimento fatigado de motoristas abandonando seus carros e pedestres acuados em um ilhamento imposto por um Rio imaginário. Entre goles apressados, pouco comuns, apreciava um restaurante ao lado que, não fosse catastrófico, seria um Making of de um filme de Buñuel, por suas características surrealistas. Personagens jantando com suas pernas dentro d’água e apreciando um mar revolto batendo à porta e invadindo suas frestas. 

Mais uma cerveja servida por um garçom desconfiado. Talvez imaginando sua volta para casa. Ao primeiro gole, percebi que “não cabia mais”. Experiente nessa arte, os goles diminuíram e cederam espaço para os olhos observarem o ambiente... Pessoas preocupadas, talvez pagando pelo abrigo e segurança daquele restaurante. Lá fora, uma mulher com algumas crianças, sob a marquise. Talvez filhos. Supus que fossem aquelas famílias, ou não, que andam pela noite vendendo flores, balas e pedindo dinheiro. Triste. 

Paguei a conta, saí do restaurante e olhei para o tempo impaciente, que tentava amenizar a força da chuva. O Rio com suas águas já mais baixas, me permitia ver as pedras que teria que enfrentar pelo caminho. Automóveis apoiados em postes, alguns despedaçados, me olhavam com curiosidade. A chuva, lentamente retomando sua força, me lembrou de uma guarda-chuva maltratado, sôfrego pelo embate de poucas horas antes. Dúvida... Sem pensar muito, atravessei aquele ambiente de destruição. A água pelos joelhos, o barro sujando minha roupa e, na mente já um pouco entorpecida pela cerveja, um sentimento estranho de aventura. Ouví ainda uma das crianças gritando e chorando, exigindo uma volta para casa. Com o coração apertado, ouvia seu apelo, pensando onde seria sua casa. A chuva voltou e molhou meu rosto com suas gotas fortes e grossas...

Era apenas uma noite em Belo Horizonte, em plena Praça Marília de Dirceu. 

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