quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Não posso...


De cada mulher eu quero um beijo, um abraço e um afago nos cabelos... Mas não posso.

Quantas mulheres eu amo, mesmo sabendo que nunca vou encontrá-las. Quantas talvez me amem e nunca me encontrarão.

Amem todos os dias, todas as horas e todos os minutos da vida. Juntos, façam sempre o jantar. Mesmo se for simples, façam com carinho e ponham a mesa com cuidado e bom gosto. Se quiserem, ponham música para tocar ou aproveitem o lindo som do silêncio que embala as paixões. Alimentem os olhos, os ouvidos, a alma e o coração. Apaguem a luz da razão e acendam velas de sonho.

Caprichem na entrada. Reguem o alimento com um bom vinho branco, verde... Deixem o tinto para os momentos mais decisivos do jantar, do namoro.
Depois, que venha a sobremesa. Mas não se esqueçam de um licor que acaricie o peito com doçura, que  aqueça a alma e aguce o sentimento de desejo, de amor e de verdade. Sejam autênticos sempre. O amor só suporta a autenticidade. Abomina as futilidades.

Depois vão os dois para a cozinha e retirem os restos dos pratos. Tudo que não se quis durante o jantar. Lavem e enxuguem os talheres, copos e deixem tudo limpo, bonito. Em todos os prazeres há restos que devem ser removidos. Não temam as mãos secas após lavarem a louça. Então olhem nos olhos amados e digam: Tudo está como deve ser. Tenham uma noite feliz, abraçados e aquecidos.

Sonhem com poesia...

Se você está só, faça tudo isso mesmo assim. Ame a si mesmo e deixe a porta aberta para que seu amor possa sair e encontrar alguém que certamente estará à espera dele em algum lugar, com um livrinho azul aberto em suas mãos, contendo em suas páginas: Ame, ame e ame.

De cada mulher eu quero um beijo, um abraço e um afago nos cabelos... Mas não posso.



quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Lohengrin

Solidão arrebatadora, espera...  Revelação. Evocação de sonhos esquecidos no tempo das lendas, dos anjos e da mitologia. Dos mensageiros  do Santo Graal, da era de ouro dos tempos. Dos poderes místicos ocultados pela natureza do segredo.

O pensamento perdido no frio da imensidão do ser. Do mover do homem indefeso, cercado pela natureza incólume. Isenta e livre, em meio ao perigo do existir.

No silêncio da existência, seres suportam fardos e acumulam culpas. Segredam mentiras e ocultam verdades. Aguardam a volta dos legendários cavaleiros do tempo. Dos cisnes.

Na madrugada, quando o silêncio dos pulmões lança seu estrondoso lamento na imensidão da existência, restam apenas perguntas… A entrega do corpo e da alma. Livres da identidade e do destino... E da origem.

A proteção divina intercede em nome da inocência e poupa os derrotados de todos os sofrimentos impostos pela perda. O cisne se perde nas águas da imaginação, no inconsciente da existência. Na luz que purifica. Apenas o sinal da esperança trespassando o céu em direção à vida próspera.

Ao eterno descanso…

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Primeiro baile

Quis dizer-lhe algo sobre minha fragilidade. Sobre não saber para onde o mundo caminha. Sobre meus medos e inseguranças. Não consegui… O mundo é dirigido por nós mesmos em cadeias desordenadas, em direções variadas. Cada um buscando o que quer e dirigindo o andar dos dias como deseja.

Na madrugada, quando quase todos dormem, almas se redimem de suas dúvidas e pecados. A manhã é ansiosa. O dia tem que nascer.

Ele me olha e diz que sua vida não seria a mesma sem minha presença. Eu, contendo as lágrimas, em silêncio sufocado, penso: Meu Deus, como pode a minha insegurança ser tão desafiadora e poderosa? Ele, olhando-me fixamente, sem responder, me diz no mais fundo de meu pensamento: Como pode a segurança se envolver em águas tão inseguras…

E a noite invade a madrugada e avança para a manhã.

É o primeiro baile…

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Santa Tereza*

Comprei uma cerveja no “Bolão” e atravessei a praça lentamente, observando as pessoas e o céu lindíssimo, com uma lua quase cheia. Passo a passo, aproveitei cada instante. Entre um gole e outro, observei uma linda mulher que me olhava e, desapontado, vi seu namorado chegar e abraça-la. Sorri para uma linda criança ao lado de sua mãe grávida e imaginei o quanto abomino a possibilidade de se negar um sorriso a uma criança. Sorri, afaguei seus cabelos e segui minha “Travessia”.
No final da praça, garrafa vazia. Pensei ironicamente: a embocadura está em dia...

Me detive algum tempo observando as casas e as pessoas que passavam. À minha frente, um carrinho de sanduíches incrustado na parede, em forma de loja e um velho portão de ferro com letreiro indicando ser o banheiro... Em uma mesa de plástico branco, um casal se olhava em silêncio. Poucas palavras e olhares tímidos comandavam a relação. Pensei no chamado “déjà vu” e, recostando-me a uma árvore, tal qual um voyeur, fiquei observando. O sino daquela bela igreja tocou forte e, como em um filme romântico, vi um sorriso brotando daqueles semblantes, enquanto suas bocas se encontravam.

Já com um gosto saudoso de cerveja na boca, empreendi o caminho de volta. Bem mais rápido. Munido de provisão, dirigi-me à porta da igreja e, da calçada, pus-me a observar braços abertos à minha frente como se quisessem me envolver. De meu ponto de vista e ângulo, arquitetura perfeita. Quase entrei. Mas minha auto censura e a garrafa de cerveja em minhas mãos, sugeriram que eu me mantivesse à distância.

Voltei para a praça e postei-me quieto, observando a lua, os casarões... Meu telefone tocou. Era um querido amigo que combinara me encontrar naquelas paragens. De carro, fomos ao Godofredo encontrar outro amigo afeito às caminhadas, trilhas.

Talvez à procura de caminhos, como eu.

Encontro tímido, rápido, mas verdadeiro. Com pessoas que nos fazem bem.
Na volta, cruzando as ruas de Santa Tereza, lembrei-me de amigos que povoam esse bairro tão peculiar, de Belo Horizonte. Lembrei do Clube da Esquina, dos Borges, Guedes e pensei em Gonzaguinha: “E a vida... O que é, diga lá meu irmão”. Nessa infinidade de experiências, vividas em apenas duas horas, pensei sorrindo: Não sei. Mas “É bonita, é bonita e é bonita”.

Enquanto me dirigia para o outro lado da cidade, sorri silenciosamente e pensei: a “Travessia” é segura. Quem conduzia o automóvel e conversava animadamente comigo, era o querido Fernando Brant. Noite boa.

*Escrito há alguns anos, quando fui com Fernando Brant, ao lançamento do livro “Pelos caminhos da Estrada Real”, de Felipe Cerquize.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Que ódio!!

Ontem odiei muita gente. Todos os dias eu odeio. Quase sempre gente que não conheço. Odiei uma motorista que buzinou exageradamente para uma senhora de aproximadamente 80 anos, que atravessava lentamente a rua, na faixa de pedestres e odiei um motoqueiro também amante da buzina de sua moto. Em toda esquina buzinava. Pude ouvi-lo durante muito tempo enquanto se afastava. Odiei um senhor, aparentemente saudável, que me pedia em tom autoritário, que eu lhe desse algum dinheiro para o almoço. Detestei um senhor que, no caixa do supermercado, deixou seu carrinho de compras à minha frente, me impedindo de passar. Odiei um outro que, no restaurante, mastigava de boca aberta... Mastigava pouco e só comia carne gordurosa. Sua “lambança” me atraía. Não conseguia deixar de olhar. Odiei uma linda mulher que, também no restaurante, me sorriu cumprimentando e depois me negou todos os seus olhares. Odiei a menina do caixa pela falta de atenção ao me perguntar enquanto conversava com outra:

- Débito ou crédito? Respondi:
- Débito.  – Retrucando, ela perguntou:
- Crédito?

À noite, em casa, já deitado pensei no quanto odeio. É muito. Brincando com o pensamento imaginei: se fosse fazer a confissão para a primeira comunhão, teria muito assunto com o padre. Lembro-me de me ver em apuros quando fui perguntado pelos pecados que cometera...

Olhei para o teto e pensei: Que ódio. Estou sem vontade de dormir...

Acordei animado e lembrei-me de um sonho.  Estava sendo julgado por meus ódios. Depois de expor todos os momentos em que me senti assim e quanto mal já havia tramado contra meus ofensores, o juiz se dirigiu a mim e disse:

- Seu caso me lembra vários julgamentos. Ontem mesmo recebemos uma   mulher que, ao se dirigir à sua casa após saber da morte do marido, disse ter odiado e ofendido uma senhora que atravessava lentamente a rua. Outro, motoqueiro, disse ter sido ofendido por um policial que julgava todos os motoqueiros irresponsáveis. Que começara a buzinar em todas as esquinas com medo de acidente e que odiava os policiais. Um outro disse odiar o mundo. Que vendia “canudinhos” no sinal e descobrira que pedindo esmola ganharia mais. Um outro, com o nariz empinado me disse que odiava o sistema e as pessoas. Que trabalhara muito e, agora aposentado, ainda era obrigado a fazer compras de supermercado. Mas que não era mais obrigado a trabalhar para os outros. Que não ajudava em nada. Mesmo parecendo mal educado. Um outro, disse que na infância fora ensinado a comer muito. Que criança tinha que ser rechonchuda. Que comia com sua mãe de “chinelo em punho” dizendo que se não comesse bem (muito) ficaria doente e morreria. Que crescera sem escola e educação. Mas se gabava de ter dinheiro e sempre muita fartura. Que não conseguia viver sem sentir ódio pela mãe, pois tinha problemas de colesterol alto, diabetes...

Continuando, o juiz me disse que, um pouco antes de mim, ouvira uma linda mulher dizer que bastava um sorriso para uma pessoa desconhecida, para ser mal interpretada. Que aprendera com sua mãe que cumprimentar as pessoas e  sorrir era educado e simpático. Mas era mal interpretada e isso a fazia sentir ódio. Disse-me ainda que recebera uma outra com a qual fora difícil um diálogo. A tudo que ele perguntava, ela respondia também com uma pergunta. Falou que desistira. Que talvez isso seja um problema de nosso tempo: Transtorno de Déficit de Atenção. Dera um veredito favorável, pois percebera que ela era muito jovem, vivendo as confusões desse século e que ele estava ficando desconcentrado. Maluco. Que o veredito era... Acordei.

Depois de relembrar todo o sonho, sem saber o final, com curiosidade e muito ódio, espreguicei e involuntariamente gritei. Pois bem. Mãos à obra. Que todos, hoje, possam me ensinar a ser bom por meio de tudo que é odiável para mim.
Melhorou o meu dia.



quarta-feira, 2 de maio de 2018

Numa noite em Lisboa - Trindade

Os pés cansados. O rosto vívido... O entusiasmo regando e cultivando o espírito.  Purificando o pensamento. O caminhar. A descoberta de uma cidade com subidas, descidas... Ruas movimentadas e perigo nas esquinas. Passos registrando rotas e olhares fotografando a vida das ruas de tristeza e frio.

O desejo de ser mais do que eu era...

O Tejo me dizendo que a vida é um eterno ir e vir de histórias contadas com o passar de suas águas. O fado tentando me convencer do peso dessa caminhada, com a suavidade envolvendo seu sofrimento. Vozes que clamam em uma noite de Alfama. Luzes que cintilam no contar de outros tempos. Ruas e becos cansados, ofegantes. Intermináveis degraus... Um bonde voltando ao passado, no frio olhar da fumaça de um hálito quente.

Guitarras no despertar da noite.

Do alto, tão bela música olhando o silêncio do Tejo, que viaja a dormir. Lábios se unindo no calor das mãos que se entrelaçam. No olhar de pálpebras cerradas, o perfume e o sussurrar do pensamento.  O Tejo acolhendo o passar de suas águas. O fado suave no entregar dos sonhos. Um bonde conduzindo o passado ao futuro... Estava em uma noite, em Lisboa.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Tudo valeu a pena...

Toquei o interfone e, como sempre, esperei intermináveis minutos para ser atendido. Subi as escadas e, uma vez mais, encontrei uma porta aberta sem ninguém à espera, naquela sala. Acostumado com  esse procedimento de vários anos atrás, entrei e me sentei. Mais alguns minutos… Surge um homem alto e grisalho, já mais magro, apertando os óculos com lentes grossas, entre as sobrancelhas. Cumprimentou-me como se tivéssemos nos encontrado na véspera. No primeiro instante de timidez olhou-me e com uma exclamação disse meu nome. Novamente eu estava ali, naquela sala, olhando para o meu amigo e primeiro professor de violão, Heber Alvim. Em seu apartamento. Em Divinópolis.

Depois de breves comentários sobre o tempo sem nos encontrar, ofereceu-me um café e me conduziu à cozinha. Acompanhei-o, enquanto ele me contava de suas caminhadas até o bairro Niterói e justificava o tempo de feitura daquele café morno. Menti dizendo que estava muito bom e disse-lhe que trazia alguns CDs gravados por mim e um DVD onde escrevera sobre sua importância em minha vida musical e pessoal. Pegou-os e, sorrindo, sugeriu que seria melhor tocar. Entregou-me um violão Di Giorgio que eu conhecia há muitos anos, com as cordas bem desgastadas…

No ano de 1971, aos nove anos, encontrei-o pela primeira vez. Bati na porta de uma sala situada no centro de Divinópolis e depois de longa espera, sorridente me cumprimentou acenando para que eu entrasse, enquanto pressionava os óculos entre as sobrancelhas. Pediu que eu tocasse algo. Acho que toquei “Noite feliz”. Após ouvir atentamente, disse que poderia me ensinar algumas coisas. Ensinou-me muito. Não só sobre o violão. Até acho que me ensinou mais sobre a música. Sobre a importância do sentir e valorizar os sentidos. A não me empolgar com o estrelismo, mas buscar o conhecimento e assimilar toda forma de expressão musical para, em seguida, deixar a sensibilidade me conduzir. Aprendi ainda a ter um posicionamento que costumo chamar de “medo” da música, embora, na essência, seja respeito e cuidado. Assim foi meu primeiro contato com o violão de “escola”.

Mais tarde, mais “vivido”, reencontrei-o e perambulamos pela noite de Divinópolis. Creio que deve haver ainda alguns bares que guardam os segredos de longas conversas musicais avançando pela madrugada. Onde dialogávamos com Bill Evans, Baden Powell, Oscar Peterson, John Williams e tantos outros. Conheci-os tomando cerveja em companhia de amigos que marcaram minha vida nessa cidade tão importante para minha formação. Aprendi muito sobre a música, o sonho e o viver.

Respirei, fechei os olhos e toquei uma composição de Baden Powell, que eu sabia que ele adorava. Eu conhecia seu gosto musical. Me apresentara os maiores nomes da música mundial. Terminei e, ainda com os olhos fechados, ouvi sua voz me dizendo:

- Está muito bom. Tocou bem.

Abri os olhos e contemplei um semblante de aprovação. Estava frente a frente com o violonista Heber Alvim... Meu professor. Quem produziu meu primeiro recital, junto com seu irmão Heraldo. Tudo valeu a pena. Que saudade!!




sexta-feira, 13 de abril de 2018

O sorriso do homem sem olhos

Mudança, dizem, em todos os sentidos faz bem. Acho que, timidamente, acredito nisso... Há algum tempo, em um momento estranho da vida, em que pressentia coisas positivas me rondando, a conspiração da engrenagem que gira o mundo me fez mudar de casa. Em uma madrugada, depois de algumas cervejas, buscando, no escuro, as fechaduras da nova casa, entrei em um beco que me conduziria a toda sorte de experiências. Ao atravessar aquele corredor escuro, fui recepcionado pelo príncipe Míchkin de Dostoievski, pelo Harry de Hermann Hesse e, irônico, amaldiçoei todos eles. Mesmo assim, com um olhar convicto e romântico, pude perceber  a lua, com um rosto suave e iluminado, alheio aos acontecimentos do “mover do mundo”, me olhando, enquanto era festejada pelo bailado das estrelas à sua volta. Voltando ao lado escuro, pensei:  

Sempre gostei da simplicidade nas pessoas. Em minha opinião a simplicidade soma desapego e autenticidade, embasada por ingenuidade e leveza. Gosto do silêncio e, até mesmo, da insegurança. Às vezes penso que a insegurança nos torna mais prudentes e respeitosos.

Foi assim que, observando o comportamento das pessoas, “in loco”, conheci os costumes pelas madrugadas, nas praças e ruas de Belo Horizonte. Vi alguns “perdidos” em bares abertos até o arder dos olhos, pela manhã, e casais que povoam a Praça da Liberdade em longas noites e que alimentam suas inquietações com incontáveis garrafas de cerveja. Vi de tudo...
Depois de longos dias, noites e buscas, concluí que chegara a hora de atravessar aquele corredor escuro, em sentido contrário. Pensei... Pensei? Não.

Olhei para trás e vi algo bom emanando daquela escuridão. Era o coro formado por amigos (conhecidos e desconhecidos) sugando de dentro de mim uma voz calma e resignada, vinda lá da região desconhecida do pensamento. Todos apontando para um trono situado na simplicidade, na escuridão e na solidão que me vigiava. Sentado nesse trono, um homem idoso com rosto de criança. Sorri e prossegui a travessia. O coro, em vigília, voltado para o trono, cantava uma linda melodia. Antes de girar a chave que selaria minha estada naquele “pedacinho de mundo” de minha existência, voltando meu olhar para o passado recente, olhei para o homem com cara de criança. Ele, sorrindo um sorriso terno e sábio, acenava para mim. Não tinha olhos. Vi, no buraco de seus olhos, a vida passando... Meus lábios foram tomados pelas belas palavras do sábio de Atenas:

“Quanta gentileza há nesse homem. Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me, conversando mais vezes comigo. Em duas palavras: uma excelente pessoa. E, hoje, que generosidade demonstrou no modo como lamentava a minha sorte! Pois bem, vamos! Obedeçamos-lhe... E que me tragam  o veneno, se ele já estiver moído: se não estiver, que o encarregado isso o faça”*. Revitalizado, fui em frente. Mudei-me de casa.

Texto da série “Impressões".
* Sócrates em Fédon (Platão).


terça-feira, 3 de abril de 2018

Birdman

Voar tornou-se símbolo de liberdade. Da busca do desprendimento das amarras da vida. Mas é na solidão de uma cela, morada de um condenado à prisão perpétua, que um filhote de pardal encontrará o cuidado necessário para crescer longe de seu ninho, longe de sua espécie, dando início a um período de paz interior, justamente quando o detento se envolve e se preocupa com o dia a dia dessa ave solitária. Isso dá sequência a uma história fantástica sobre o cuidado e a leveza, necessários para lidar com pássaros tão frágeis e delicados.  Sentimentos que contagiam o coração. Ali, onde o termo “liberdade” não produz os efeitos práticos, resta somente a libertação da alma. A aceitação das limitações da vida vivida em cativeiro. Justamente com pássaros. Estou falando do filme “Birdman of Alcatraz”.*

Não sabemos o que nos espera após a morte... Moldamos, ao longo da vida, o que pensamos ser o melhor e, baseados nos preceitos familiares e na convivência social, fazemos opções assumindo as consequências possibilitadas pelo exercício do livre arbítrio.
Imaginem se após a morte, fôssemos recebidos por um grupo incumbido de criar o filme de um momento de nossa vida, que nos tenha marcado profundamente! Essa lembrança seria o que levaríamos para a eternidade. Somente uma lembrança... Nesse momento, qual seria a lembrança de um acontecimento importante em sua trajetória nesse mundo, que seria o filme de sua vida para a eternidade? Estou falando do filme “Depois da vida”.**

Andando por uma rua deserta, à noite, observava a solidão dos edifícios, com suas poucas luzes acesas, imaginando os acontecimentos  simultâneos que contribuem para o que chamamos de viver. Alegrias, tristezas, realizações, dores... Tudo acontecendo simultaneamente e girando a roda que movimenta o mundo. Repentinamente, gritos atravessam a noite interrompendo a monotonia e o romantismo de uma chuvinha fina. Duas pessoas discutem com ferocidade. Embaixo de uma marquise, uma velha senhora de aproximadamente trinta e poucos anos, vociferando com palavrões e muita ira, exige que um rapaz saia de seu espaço argumentando que, à noite, aquele lugar é a sua casa. Ela exige que respeitem o seu lar de todas as noites. A briga é muito assustadora e a senhora sai vencedora. O invasor desiste. Sai em busca de outro lugar.

Estou falando, lamentavelmente, do filme real da vida. O espectador era eu mesmo. Descia a Rua Gávea no bairro Jardim América, em Belo Horizonte, após um dia de gravações. Quisera ser, naquela hora, o herói de um filme que salva os pássaros de dentro de sua morada eterna nesse mundo. Teria uma bela lembrança para o filme de minha vida...

*John Frankenheimer
**Hirokazu Kore-eda



terça-feira, 27 de março de 2018

Contrários

- Não são do bem nem do mal. São facções opostas.

Foi assim que meu filho respondeu à minha pergunta sobre os personagens de um joguinho eletrônico. Após dizer-lhe que a resposta era sábia, sem que ele desse qualquer  importância à minha opinião, seguimos jogando. Ou melhor, ele jogando e eu o observando. Sou péssimo nesse item.

Hoje, após abrir os olhos pela manhã, lembrei-me de nossa conversa. Depois de perambular por muitas hipóteses em busca de compreensão desse mundo estranho, onde amigos se digladiam e acreditam em opiniões (verdades)  apresentadas pela via escrita, justificando agressões nomeadas de “discussão saudável e necessária”, finalmente me veio a revelação que eu buscava. Já suspeitava, mas dita de forma metafórica, tendo como roteiro elipses da vida, fica tudo mais simples. Ditas com naturalidade, por uma criança, dando a devida importância: posicionamento.

Em minha mente desfilaram várias frases que presenciei, li ou ouvi ao longo da vida e que são atribuídas, nesse mar de insegurança e mediocridade filosófica que configura  a internet, a qualquer autor... Vladimir Horowitz me diz sobre a crítica na música: “Trata-se apenas de uma opinião. Opinião todos têm...”. Nietzsche proclama: "Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”...


Em meio ao turbilhão que invade minha mente e meus olhos nesse lamaçal de opiniões, penso na realidade da vida. Às vezes dura. Não para mim. Acho que sou privilegiado por poder fazer música, escrever, sonhar... Mas para alguns que vagam pela cidade sem uma rota estabelecida. Que se reúnem, às vezes, para uma comemoração inusitada e, tal qual em um encontro marcado, festejam o nada.

Hoje, em frente à Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, enquanto caminhava com meu filho depois de visitar alguns museus, vi uma cena curiosa. De um lado um feliz encontro de personalidades da literatura, que nos ensinaram muito sobre a vida e o respeito à cidadania. Ali reunidos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campo pareciam, em conversa animada, discutir sobre a educação, a cultura, a poesia... Talvez sobre o jazz e a vida.

Do outro lado, alheios ao bate papo dos mestres, alguns moradores de rua cumpriam sua sina de nômades. Enquanto um dormia, outros preparavam, em uma cozinha improvisada com fornalha e utensílios gastos, algum tipo de alimento. A conversa era monossilábica. Pareceu-me que recebiam visitas, pois uma mulher chamava um dos presentes, dizendo que já estava na hora de irem embora.
Meu filho me perguntou se moravam lá... Olhei-o, pensei e disse:

- Hoje sim. Amanhã talvez em outro ponto da cidade. São errantes que sofrem com o desprezo de políticos que não compreendem que o bem estar das pessoas é a maior  obra da vida,  capaz de transformar culturas e melhorar o mundo. Ele olhou-me e disse de forma curiosa:

- Eles não têm casa?

Disse-lhe que ainda não. Mas que o mundo ia mudar e as pessoas de boa fé, (para mim, verdadeiros representantes do Brasil de Darci Ribeiro e tantos outros), viveriam bem e teriam paz em seus lares com suas famílias, independente de serem menos privilegiadas. Sem fome, com escola, saúde, emprego... Seguimos. Ele lamentando a distância do carro. Eu pensando com certo amargor: em breve teremos eleições. Será o momento de exercitarmos nossa cidadania e democracia escolhendo bem nossos representantes.

Olhei ainda para trás e vi uma cena bonita. Um dos moradores de rua apoiava seu braço nos ombros de Fernando Sabino e falava algo que eu não podia ouvir. Talvez celebrasse o “Encontro Marcado” com o respeito ao ser humano. Sorriam.