terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ombligo de la luna


Como uma procissão de solitários fiéis, seguiam seres preguiçosamente entregues ao alheamento, absorvidos pela necessidade de trabalho, em meio aos curiosos peregrinos, sedentos de história e lazer. O Sol, raivoso, conduzia as sombras indecisas e inseguras, quanto ao caminho que deveriam seguir. Curiosamente, à sua esquerda, a Lua se submetia àquele dia mal humorado do sol escaldante, enquanto sentia a curiosidade rondando sua beleza e tentando desbravar tempos distantes. Atento à indecisão daquelas sombras, amparado por um imenso chapéu, seguia eu, com olhar observador, aquela romaria de uma correção de seres humanos formigados, irrompendo rumo ao pico daquelas lindas e poderosas pirâmides. 

À direita, a Lua. À frente, o Sol.

A cada passo, refletido no suor de minha testa, uma interrogação se erguendo em meu pensamento. Porque dependemos tanto do passado e nos preocupamos tão pouco com a construção do futuro? Nossas ações no presente não serão as consequências do que no futuro chamaremos de passado? 

Em meio ao xadrez mental que me envolvia, fui atraído por um olhar diferente. Por detrás dos óculos escuros percebi uma senhora aparentemente descendente de índios. Olhar austero e rugas profundas em um rosto habituado ao mal humor do sol daquelas paragens. Furtivamente contemplei-a de uma distância segura. Vendia algumas peças que me pareceram bijuterias fabricadas em série, mas que tentavam seduzir com ares falsos de artesanato nativo. 
Pareceu-me tão alheia a tudo… Ou foi o sol que me influenciou com seu calor, me levando ao estado de transe? Andava a certa distância usando óculos muito escuros e observando aquela senhora que, com o movimento dos olhos, apenas, me seguia. Passei por ela e em um breve instante nossos olhos se cruzaram. Os meus, escondidos. Os dela, expostos ao sol, indagadores e expressivos, traziam a expressão daqueles pelos quais o mundo passa. Sem deixar traço de passado ou perspectiva de futuro. Vida vivida no dia a dia da sobrevivência. Como em uma estação, quando perdemos um trem, mas aquietamos ao saber  que ele retornará, em um eterno ir e vir.

Segui adiante tentando esconder o desejo de olhar para trás. Fora tocado por uma força estranha que me impelia ao sentimento de invasor incauto, como se meu pensamento houvesse sido desvendado. Enquanto isso Sol e Lua tentavam uma negociação com o vento que viera interceder por aqueles que tentam uma subida ao passado, donde se pode ver o mundo e tentar compreender os enigmas do tempo. Onde águias comem cobras, pousadas em cactos, mostrando os sinais de novos tempos, de uma terra prometida. 

Segui adiante nos dias, sem esquecer aquele olhar…

Em meio à multidão, qual um romeiro crédulo, caminhava com toda minha incredulidade, rumo ao centro da catedral. Em fila, mutilados, aleijados, doentes graves, idosos e crianças seguiam, resignados, em direção à fonte da esperança, com nascente na caridade e na fé. Eles, buscando consolo e benção para os seus dias. Eu, buscando um assento para o descanso depois de uma longa caminhada. 

Enquanto um batismo trazia às famílias a certeza das portas divinas sendo abertas aos anjos que, chorando, levavam seus pais ao êxtase e júbilo, aproximou-se de mim um homem simples, mal vestido e muito tímido. Tentou falar comigo… Eu, inquieto, disse-lhe que estava orando, meditando. Como se aquele lugar não se prestasse a encontros casuais de almas que habitam o mesmo mundo e camuflam suas dores na projeção de crença naqueles que se dizem semelhantes. Com aspecto envergonhado e tímido, sem jeito, afastou-se lentamente. Acompanhei-o por trás dos óculos escuros, esconderijo para todas as minhas sombras. Em direção à sacristia, foi recebido pelo padre. Olhei-o de costas por um instante e fui abatido por uma grande vergonha. Daquelas que nos mostram nossa insignificância e incapacidade de compreender o mundo, a pobreza e a doença daqueles que nos rodeiam. Senti-me como um hipócrita mirando os males do mundo e a miséria das pessoas, pela vidraça. Protegido do encontro com aqueles que representam o que há de melhor nessa vida: a aceitação de um destino, quase sempre escrito por pessoas alheias à compreensão de humanidade e respeito. De justiça. A crença e luta por dias melhores.

Envergonhado, percebi que sou um passageiro de um trem que segue rumo ao futuro, sem construir nada ou contribuir para que tenhamos um passado melhor…

Agora é tarde. O homem já vai longe. Na rua, um sol raivoso iluminando aquela multidão que me olhava fixamente com seus olhares austeros. Trazendo rugas profundas em seus rostos habituados ao mal humor do sol daquelas paragens. 

Em todas as esquinas e cruzamentos da vida, no abrir e fechar dos olhos, mesmo por detrás dos óculos escuros, observo os dias e construo um pequeno pedacinho de esperança para a posteridade. 

E sigo adiante nos dias, sem esquecer aqueles olhares…

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Insanidade

Próximo ao dia do compositor, comecei a formular e ponderar sobre o sentido da cultura em nossa vida. De forma ampla…

Preguiçoso e enfastiado que ando, com tanto lixo invadindo nossa casa e nossa vida, revisei o quadro cultural brasileiro. Que tristeza. Museus incendiados e condenados ao esquecimento, classe artística desprezada, setores culturais conduzidos sem criatividade por políticos de carreira, inabilitados, sentados à mesa de decisões de secretarias... Tudo isso cedendo lugar, na mentalidade do povo, por meio da mídia, a golpes de faca e bate bocas de pseudos conhecedores da problemática da vida. Do respeito…

Ironicamente, sorri e imaginei: como consegui dedicar toda minha vida ao estudo da música, composição, violão, ler livros, estudar cinema e canalizar tudo isso para o relacionamento com as pessoas e o entendimento da natureza humana?... Que loucura.

Aprofundar em temas como esse, dá muito trabalho e, quase sempre, nos leva ao conceito de que alguns questionamentos são loucura. Não têm resposta ou explicação. A verdade é que nossa raça tem muita facilidade para a adaptação. Nos acostumamos facilmente com a mediocridade e temos uma mente carente de soberania. A opinião ou o “espírito”, alheios à razão. Exceto quando atendendo às nossas necessidades e interesses próprios.

Modo insano de viver…

Assistindo aos políticos e ouvindo debates “engessados”, aguardo, ansioso, o momento do tema sorteado, com a palavra “Cultura”… Não tem?! Mas disseram que a base da civilização é a cultura! Não. Não tem mesmo. Ou não vi? Há outros temas mais importantes atualmente. É… O objetivo é outro. Argumentos que suplantem verdades ou inverdades adversárias.

A mãe, muito aflita e envergonhada, me chama e conta a realidade de seus dias. O marido, atropelado, em casa, sem emprego. Ela, desempregada. Ao seu lado o filho, um menino bonito, bem vestido e transparecendo desejo de brincar. Aproveitar seus dez anos. Ela diz que ele tem fome… Enquanto ela fala eu o observo. Por detrás de meus óculos escuros me permito reações que em situações normais eu travaria. Os olhos, às vezes, cedem à força da “água salgada” que as ondas do sentimento nos lança. A voz embarga. Retiro minha carteira e dou-lhe algum dinheiro.

Já me afastando, uma voz me diz que há alimento em sua merendeira. Voltamos. A cena é de uma criança entregando à outra algumas torradas e se despedindo. Acabara de pegar meu filho na escola.

Vida insana…

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Não posso...


De cada mulher eu quero um beijo, um abraço e um afago nos cabelos... Mas não posso.

Quantas mulheres eu amo, mesmo sabendo que nunca vou encontrá-las. Quantas talvez me amem e nunca me encontrarão.

Amem todos os dias, todas as horas e todos os minutos da vida. Juntos, façam sempre o jantar. Mesmo se for simples, façam com carinho e ponham a mesa com cuidado e bom gosto. Se quiserem, ponham música para tocar ou aproveitem o lindo som do silêncio que embala as paixões. Alimentem os olhos, os ouvidos, a alma e o coração. Apaguem a luz da razão e acendam velas de sonho.

Caprichem na entrada. Reguem o alimento com um bom vinho branco, verde... Deixem o tinto para os momentos mais decisivos do jantar, do namoro.
Depois, que venha a sobremesa. Mas não se esqueçam de um licor que acaricie o peito com doçura, que  aqueça a alma e aguce o sentimento de desejo, de amor e de verdade. Sejam autênticos sempre. O amor só suporta a autenticidade. Abomina as futilidades.

Depois vão os dois para a cozinha e retirem os restos dos pratos. Tudo que não se quis durante o jantar. Lavem e enxuguem os talheres, copos e deixem tudo limpo, bonito. Em todos os prazeres há restos que devem ser removidos. Não temam as mãos secas após lavarem a louça. Então olhem nos olhos amados e digam: Tudo está como deve ser. Tenham uma noite feliz, abraçados e aquecidos.

Sonhem com poesia...

Se você está só, faça tudo isso mesmo assim. Ame a si mesmo e deixe a porta aberta para que seu amor possa sair e encontrar alguém que certamente estará à espera dele em algum lugar, com um livrinho azul aberto em suas mãos, contendo em suas páginas: Ame, ame e ame.

De cada mulher eu quero um beijo, um abraço e um afago nos cabelos... Mas não posso.



quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Lohengrin

Solidão arrebatadora, espera...  Revelação. Evocação de sonhos esquecidos no tempo das lendas, dos anjos e da mitologia. Dos mensageiros  do Santo Graal, da era de ouro dos tempos. Dos poderes místicos ocultados pela natureza do segredo.

O pensamento perdido no frio da imensidão do ser. Do mover do homem indefeso, cercado pela natureza incólume. Isenta e livre, em meio ao perigo do existir.

No silêncio da existência, seres suportam fardos e acumulam culpas. Segredam mentiras e ocultam verdades. Aguardam a volta dos legendários cavaleiros do tempo. Dos cisnes.

Na madrugada, quando o silêncio dos pulmões lança seu estrondoso lamento na imensidão da existência, restam apenas perguntas… A entrega do corpo e da alma. Livres da identidade e do destino... E da origem.

A proteção divina intercede em nome da inocência e poupa os derrotados de todos os sofrimentos impostos pela perda. O cisne se perde nas águas da imaginação, no inconsciente da existência. Na luz que purifica. Apenas o sinal da esperança trespassando o céu em direção à vida próspera.

Ao eterno descanso…

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Primeiro baile

Quis dizer-lhe algo sobre minha fragilidade. Sobre não saber para onde o mundo caminha. Sobre meus medos e inseguranças. Não consegui… O mundo é dirigido por nós mesmos em cadeias desordenadas, em direções variadas. Cada um buscando o que quer e dirigindo o andar dos dias como deseja.

Na madrugada, quando quase todos dormem, almas se redimem de suas dúvidas e pecados. A manhã é ansiosa. O dia tem que nascer.

Ele me olha e diz que sua vida não seria a mesma sem minha presença. Eu, contendo as lágrimas, em silêncio sufocado, penso: Meu Deus, como pode a minha insegurança ser tão desafiadora e poderosa? Ele, olhando-me fixamente, sem responder, me diz no mais fundo de meu pensamento: Como pode a segurança se envolver em águas tão inseguras…

E a noite invade a madrugada e avança para a manhã.

É o primeiro baile…

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Santa Tereza*

Comprei uma cerveja no “Bolão” e atravessei a praça lentamente, observando as pessoas e o céu lindíssimo, com uma lua quase cheia. Passo a passo, aproveitei cada instante. Entre um gole e outro, observei uma linda mulher que me olhava e, desapontado, vi seu namorado chegar e abraça-la. Sorri para uma linda criança ao lado de sua mãe grávida e imaginei o quanto abomino a possibilidade de se negar um sorriso a uma criança. Sorri, afaguei seus cabelos e segui minha “Travessia”.
No final da praça, garrafa vazia. Pensei ironicamente: a embocadura está em dia...

Me detive algum tempo observando as casas e as pessoas que passavam. À minha frente, um carrinho de sanduíches incrustado na parede, em forma de loja e um velho portão de ferro com letreiro indicando ser o banheiro... Em uma mesa de plástico branco, um casal se olhava em silêncio. Poucas palavras e olhares tímidos comandavam a relação. Pensei no chamado “déjà vu” e, recostando-me a uma árvore, tal qual um voyeur, fiquei observando. O sino daquela bela igreja tocou forte e, como em um filme romântico, vi um sorriso brotando daqueles semblantes, enquanto suas bocas se encontravam.

Já com um gosto saudoso de cerveja na boca, empreendi o caminho de volta. Bem mais rápido. Munido de provisão, dirigi-me à porta da igreja e, da calçada, pus-me a observar braços abertos à minha frente como se quisessem me envolver. De meu ponto de vista e ângulo, arquitetura perfeita. Quase entrei. Mas minha auto censura e a garrafa de cerveja em minhas mãos, sugeriram que eu me mantivesse à distância.

Voltei para a praça e postei-me quieto, observando a lua, os casarões... Meu telefone tocou. Era um querido amigo que combinara me encontrar naquelas paragens. De carro, fomos ao Godofredo encontrar outro amigo afeito às caminhadas, trilhas.

Talvez à procura de caminhos, como eu.

Encontro tímido, rápido, mas verdadeiro. Com pessoas que nos fazem bem.
Na volta, cruzando as ruas de Santa Tereza, lembrei-me de amigos que povoam esse bairro tão peculiar, de Belo Horizonte. Lembrei do Clube da Esquina, dos Borges, Guedes e pensei em Gonzaguinha: “E a vida... O que é, diga lá meu irmão”. Nessa infinidade de experiências, vividas em apenas duas horas, pensei sorrindo: Não sei. Mas “É bonita, é bonita e é bonita”.

Enquanto me dirigia para o outro lado da cidade, sorri silenciosamente e pensei: a “Travessia” é segura. Quem conduzia o automóvel e conversava animadamente comigo, era o querido Fernando Brant. Noite boa.

*Escrito há alguns anos, quando fui com Fernando Brant, ao lançamento do livro “Pelos caminhos da Estrada Real”, de Felipe Cerquize.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Que ódio!!

Ontem odiei muita gente. Todos os dias eu odeio. Quase sempre gente que não conheço. Odiei uma motorista que buzinou exageradamente para uma senhora de aproximadamente 80 anos, que atravessava lentamente a rua, na faixa de pedestres e odiei um motoqueiro também amante da buzina de sua moto. Em toda esquina buzinava. Pude ouvi-lo durante muito tempo enquanto se afastava. Odiei um senhor, aparentemente saudável, que me pedia em tom autoritário, que eu lhe desse algum dinheiro para o almoço. Detestei um senhor que, no caixa do supermercado, deixou seu carrinho de compras à minha frente, me impedindo de passar. Odiei um outro que, no restaurante, mastigava de boca aberta... Mastigava pouco e só comia carne gordurosa. Sua “lambança” me atraía. Não conseguia deixar de olhar. Odiei uma linda mulher que, também no restaurante, me sorriu cumprimentando e depois me negou todos os seus olhares. Odiei a menina do caixa pela falta de atenção ao me perguntar enquanto conversava com outra:

- Débito ou crédito? Respondi:
- Débito.  – Retrucando, ela perguntou:
- Crédito?

À noite, em casa, já deitado pensei no quanto odeio. É muito. Brincando com o pensamento imaginei: se fosse fazer a confissão para a primeira comunhão, teria muito assunto com o padre. Lembro-me de me ver em apuros quando fui perguntado pelos pecados que cometera...

Olhei para o teto e pensei: Que ódio. Estou sem vontade de dormir...

Acordei animado e lembrei-me de um sonho.  Estava sendo julgado por meus ódios. Depois de expor todos os momentos em que me senti assim e quanto mal já havia tramado contra meus ofensores, o juiz se dirigiu a mim e disse:

- Seu caso me lembra vários julgamentos. Ontem mesmo recebemos uma   mulher que, ao se dirigir à sua casa após saber da morte do marido, disse ter odiado e ofendido uma senhora que atravessava lentamente a rua. Outro, motoqueiro, disse ter sido ofendido por um policial que julgava todos os motoqueiros irresponsáveis. Que começara a buzinar em todas as esquinas com medo de acidente e que odiava os policiais. Um outro disse odiar o mundo. Que vendia “canudinhos” no sinal e descobrira que pedindo esmola ganharia mais. Um outro, com o nariz empinado me disse que odiava o sistema e as pessoas. Que trabalhara muito e, agora aposentado, ainda era obrigado a fazer compras de supermercado. Mas que não era mais obrigado a trabalhar para os outros. Que não ajudava em nada. Mesmo parecendo mal educado. Um outro, disse que na infância fora ensinado a comer muito. Que criança tinha que ser rechonchuda. Que comia com sua mãe de “chinelo em punho” dizendo que se não comesse bem (muito) ficaria doente e morreria. Que crescera sem escola e educação. Mas se gabava de ter dinheiro e sempre muita fartura. Que não conseguia viver sem sentir ódio pela mãe, pois tinha problemas de colesterol alto, diabetes...

Continuando, o juiz me disse que, um pouco antes de mim, ouvira uma linda mulher dizer que bastava um sorriso para uma pessoa desconhecida, para ser mal interpretada. Que aprendera com sua mãe que cumprimentar as pessoas e  sorrir era educado e simpático. Mas era mal interpretada e isso a fazia sentir ódio. Disse-me ainda que recebera uma outra com a qual fora difícil um diálogo. A tudo que ele perguntava, ela respondia também com uma pergunta. Falou que desistira. Que talvez isso seja um problema de nosso tempo: Transtorno de Déficit de Atenção. Dera um veredito favorável, pois percebera que ela era muito jovem, vivendo as confusões desse século e que ele estava ficando desconcentrado. Maluco. Que o veredito era... Acordei.

Depois de relembrar todo o sonho, sem saber o final, com curiosidade e muito ódio, espreguicei e involuntariamente gritei. Pois bem. Mãos à obra. Que todos, hoje, possam me ensinar a ser bom por meio de tudo que é odiável para mim.
Melhorou o meu dia.



quarta-feira, 2 de maio de 2018

Numa noite em Lisboa - Trindade

Os pés cansados. O rosto vívido... O entusiasmo regando e cultivando o espírito.  Purificando o pensamento. O caminhar. A descoberta de uma cidade com subidas, descidas... Ruas movimentadas e perigo nas esquinas. Passos registrando rotas e olhares fotografando a vida das ruas de tristeza e frio.

O desejo de ser mais do que eu era...

O Tejo me dizendo que a vida é um eterno ir e vir de histórias contadas com o passar de suas águas. O fado tentando me convencer do peso dessa caminhada, com a suavidade envolvendo seu sofrimento. Vozes que clamam em uma noite de Alfama. Luzes que cintilam no contar de outros tempos. Ruas e becos cansados, ofegantes. Intermináveis degraus... Um bonde voltando ao passado, no frio olhar da fumaça de um hálito quente.

Guitarras no despertar da noite.

Do alto, tão bela música olhando o silêncio do Tejo, que viaja a dormir. Lábios se unindo no calor das mãos que se entrelaçam. No olhar de pálpebras cerradas, o perfume e o sussurrar do pensamento.  O Tejo acolhendo o passar de suas águas. O fado suave no entregar dos sonhos. Um bonde conduzindo o passado ao futuro... Estava em uma noite, em Lisboa.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Tudo valeu a pena...

Toquei o interfone e, como sempre, esperei intermináveis minutos para ser atendido. Subi as escadas e, uma vez mais, encontrei uma porta aberta sem ninguém à espera, naquela sala. Acostumado com  esse procedimento de vários anos atrás, entrei e me sentei. Mais alguns minutos… Surge um homem alto e grisalho, já mais magro, apertando os óculos com lentes grossas, entre as sobrancelhas. Cumprimentou-me como se tivéssemos nos encontrado na véspera. No primeiro instante de timidez olhou-me e com uma exclamação disse meu nome. Novamente eu estava ali, naquela sala, olhando para o meu amigo e primeiro professor de violão, Heber Alvim. Em seu apartamento. Em Divinópolis.

Depois de breves comentários sobre o tempo sem nos encontrar, ofereceu-me um café e me conduziu à cozinha. Acompanhei-o, enquanto ele me contava de suas caminhadas até o bairro Niterói e justificava o tempo de feitura daquele café morno. Menti dizendo que estava muito bom e disse-lhe que trazia alguns CDs gravados por mim e um DVD onde escrevera sobre sua importância em minha vida musical e pessoal. Pegou-os e, sorrindo, sugeriu que seria melhor tocar. Entregou-me um violão Di Giorgio que eu conhecia há muitos anos, com as cordas bem desgastadas…

No ano de 1971, aos nove anos, encontrei-o pela primeira vez. Bati na porta de uma sala situada no centro de Divinópolis e depois de longa espera, sorridente me cumprimentou acenando para que eu entrasse, enquanto pressionava os óculos entre as sobrancelhas. Pediu que eu tocasse algo. Acho que toquei “Noite feliz”. Após ouvir atentamente, disse que poderia me ensinar algumas coisas. Ensinou-me muito. Não só sobre o violão. Até acho que me ensinou mais sobre a música. Sobre a importância do sentir e valorizar os sentidos. A não me empolgar com o estrelismo, mas buscar o conhecimento e assimilar toda forma de expressão musical para, em seguida, deixar a sensibilidade me conduzir. Aprendi ainda a ter um posicionamento que costumo chamar de “medo” da música, embora, na essência, seja respeito e cuidado. Assim foi meu primeiro contato com o violão de “escola”.

Mais tarde, mais “vivido”, reencontrei-o e perambulamos pela noite de Divinópolis. Creio que deve haver ainda alguns bares que guardam os segredos de longas conversas musicais avançando pela madrugada. Onde dialogávamos com Bill Evans, Baden Powell, Oscar Peterson, John Williams e tantos outros. Conheci-os tomando cerveja em companhia de amigos que marcaram minha vida nessa cidade tão importante para minha formação. Aprendi muito sobre a música, o sonho e o viver.

Respirei, fechei os olhos e toquei uma composição de Baden Powell, que eu sabia que ele adorava. Eu conhecia seu gosto musical. Me apresentara os maiores nomes da música mundial. Terminei e, ainda com os olhos fechados, ouvi sua voz me dizendo:

- Está muito bom. Tocou bem.

Abri os olhos e contemplei um semblante de aprovação. Estava frente a frente com o violonista Heber Alvim... Meu professor. Quem produziu meu primeiro recital, junto com seu irmão Heraldo. Tudo valeu a pena. Que saudade!!




sexta-feira, 13 de abril de 2018

O sorriso do homem sem olhos

Mudança, dizem, em todos os sentidos faz bem. Acho que, timidamente, acredito nisso... Há algum tempo, em um momento estranho da vida, em que pressentia coisas positivas me rondando, a conspiração da engrenagem que gira o mundo me fez mudar de casa. Em uma madrugada, depois de algumas cervejas, buscando, no escuro, as fechaduras da nova casa, entrei em um beco que me conduziria a toda sorte de experiências. Ao atravessar aquele corredor escuro, fui recepcionado pelo príncipe Míchkin de Dostoievski, pelo Harry de Hermann Hesse e, irônico, amaldiçoei todos eles. Mesmo assim, com um olhar convicto e romântico, pude perceber  a lua, com um rosto suave e iluminado, alheio aos acontecimentos do “mover do mundo”, me olhando, enquanto era festejada pelo bailado das estrelas à sua volta. Voltando ao lado escuro, pensei:  

Sempre gostei da simplicidade nas pessoas. Em minha opinião a simplicidade soma desapego e autenticidade, embasada por ingenuidade e leveza. Gosto do silêncio e, até mesmo, da insegurança. Às vezes penso que a insegurança nos torna mais prudentes e respeitosos.

Foi assim que, observando o comportamento das pessoas, “in loco”, conheci os costumes pelas madrugadas, nas praças e ruas de Belo Horizonte. Vi alguns “perdidos” em bares abertos até o arder dos olhos, pela manhã, e casais que povoam a Praça da Liberdade em longas noites e que alimentam suas inquietações com incontáveis garrafas de cerveja. Vi de tudo...
Depois de longos dias, noites e buscas, concluí que chegara a hora de atravessar aquele corredor escuro, em sentido contrário. Pensei... Pensei? Não.

Olhei para trás e vi algo bom emanando daquela escuridão. Era o coro formado por amigos (conhecidos e desconhecidos) sugando de dentro de mim uma voz calma e resignada, vinda lá da região desconhecida do pensamento. Todos apontando para um trono situado na simplicidade, na escuridão e na solidão que me vigiava. Sentado nesse trono, um homem idoso com rosto de criança. Sorri e prossegui a travessia. O coro, em vigília, voltado para o trono, cantava uma linda melodia. Antes de girar a chave que selaria minha estada naquele “pedacinho de mundo” de minha existência, voltando meu olhar para o passado recente, olhei para o homem com cara de criança. Ele, sorrindo um sorriso terno e sábio, acenava para mim. Não tinha olhos. Vi, no buraco de seus olhos, a vida passando... Meus lábios foram tomados pelas belas palavras do sábio de Atenas:

“Quanta gentileza há nesse homem. Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me, conversando mais vezes comigo. Em duas palavras: uma excelente pessoa. E, hoje, que generosidade demonstrou no modo como lamentava a minha sorte! Pois bem, vamos! Obedeçamos-lhe... E que me tragam  o veneno, se ele já estiver moído: se não estiver, que o encarregado isso o faça”*. Revitalizado, fui em frente. Mudei-me de casa.

Texto da série “Impressões".
* Sócrates em Fédon (Platão).