sábado, 29 de agosto de 2020

A difícil arte de festejar a vida...

 “Solidão é independência. Com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal, após tantos anos.” (Hermann Hesse)

Estamos preparados para a liberdade, viver respeitando tudo, todos e aceitando as exigências do ser livre? Talvez... Desde que nascemos somos, aos poucos, formatados de acordo com os padrões estabelecidos e considerados corretos. Nossos pais, dentro de suas possibilidades, nos ensinam aquilo em que acreditaram um dia. Assim vamos construindo o que consideramos correto. Desde criança ouço falar de alguns temas que fui, aos poucos, concordando ou discordando no mover da vida. Hoje meus conceitos são, às vezes, claros. Mas sigo como observador. Percebendo novos valores que surgem e se tornam parâmetro para a vida, enquanto outros não passam de sugestões de comportamento que se evaporam ou metamorfoseiam (que palavra), dando lugar a novos modelos. Abaixo, enumero alguns que considero pelo menos engraçados...

 

Dormir  - Sempre ouvi dizer que oito horas de sono, no mínimo, por noite, é o ideal. Melhor se for das dez da noite às seis da manhã. Duas da manhã às dez horas pode? Melhor não... “Deus ajuda a quem cedo madruga” e  dizem que o cérebro funciona melhor de manhãzinha... Alguns até se vangloriam pelo horário madrugador em que despertam. Aos que não madrugam, que se entendam com o diabo.

 

Alimentação -  Começar o dia com um café, pães, chá, sucos e, em seguida, fruta no meio da manhã. Almoço em horário controlado, lanche da tarde e jantar. A fome não interessa nesses casos. Quando criança observava a ceva de jacus. Uma beleza. Comida à vontade quando quisessem, até caírem em uma armadilha. Comiam sem ter fome. Na verdade um passatempo... 

 

Corpo e mente em equilíbrio - O sistema de regras nos garante também que é fundamental o cuidado com o corpo. O preparo físico influencia a mente. Praticar esporte é fundamental. Mesmo que seja antes do trabalho, às seis da manhã, por exemplo. Ou depois, por volta das sete da noite. O problema é que, para sair às seis da manhã para uma caminhada, temos que acordar as cinco. Trabalhando até as seis, sete horas da noite, surge outro problema: a caminhada ou ginástica de uma hora à noite, complica mais ainda, considerando que depois temos o banho, o jantar... E as oito horas de sono?

 

Independente disso, as regras dizem que o mais importante é manter o corpo em forma, complementando com musculação e, se possível, meditação. Lembro-me que em uma academia, o som de “bate-estaca” muito alto foi motivo de reclamação por um dos clientes. Ouvindo-o atentamente, o gerente diagnosticou com precisão, dizendo que, realmente, ele (cliente) estava estressado. Que deveria dobrar os dias de academia...

 

Modismos – Hoje as regras são rígidas: celular com câmera de alta resolução para as selfies e filmagens, além de uma boa internet... Faça-me o favor. Apple. Você é uma pessoa bem sucedida e inteligente. Não vá passar por esse vexame. O que os outros vão dizer? Não importa se sua situação econômica não é das melhores. Pague a “perder de vista”. Cuide das aparências.

 

Redes sociais - Discursos, nem pensar. Somente textos curtos e abreviados. O tempo urge. Não exija muito de seu leitor. Como você está em forma, exiba seus dotes físicos e costumes extravagantes como comidas sofisticadas, passeios, lazer... Vivemos a era da imagem. Não se intimide e jamais tema ser feliz. Mostre o quanto você aproveita a vida. Não omita o seu jeito bem sucedido de ser. Você pode ser um exemplo para muitas pessoas “acomodadas”. Valorize a sua beleza.

 

Não se preocupe com leitura. Afinal você tem acesso à cultura na internet. Há alguma dúvida? Nesses tempos, impossível.  A internet te conta tudo. Fala de política, sociologia, psicologia, filosofia, medicina... Que bom o “faça você mesmo”. Já dizem até que existe um “Doutor Sabe Tudo”. Seja bondoso com todos. Deixe seu LIKE.

 

Trabalhe feliz e contente, atendendo a todas as exigências de sua empresa. Não poupe esforços. O trabalho dignifica o homem. Ironia à parte, nunca ouvi dizer que à mulher também. Minha mãe sempre trabalhou cuidando da casa, comida, filhos... Uma luta. Bom, o sistema também tem falhas. Até um HD passa por isso. Como questiona-lo? A memória foi formatada.

 

Já terminando. O tempo é precioso e eu estou complicando esse texto por certa ansiedade. Muitos poderão dizer, a partir da leitura, que sou um reclamão ou anarquista. Talvez tenham razão. Mas me permitam. Gosto de comer somente quando sinto fome. De cochilar, acordar e não dormir mais, passar a noite em claro ouvindo música; de brincar quando as coisas sãos sérias, de assistir ao mesmo filme dez vezes, ler livros várias vezes e me dedicar à obra completa de um autor... Rir de minhas atitudes, sentimentos e ridiculariza-los. 

 

Isso, depois de todos os requisitos da cartilha concluídos e de ter à minha disposição algumas garrafas de cerveja ansiosas por aliviar seus fardos. Será que tem jeito para mim? 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Imprevisíveis encontros...

Em um dia ensolarado, enquanto nos acomodávamos em um restaurante para um almoço após uma longa manhã de reuniões, ele, subitamente, me disse: “- Por que não fazemos música juntos?” Olhei-o, pensei e, após uma eternidade de dois segundos, disse que ia procurar alguns temas que mantinha guardados. Mentira. Não havia nenhum tema composto. O espaço fictício que eles ocupavam, cedeu lugar à urgência de ter algo para enviar para ele. Teria dias de muito trabalho pela frente...

 

A noite era boa, quente. Como a maioria das noites no Rio de Janeiro. Em volta da mesa, pessoas que acabara de conhecer me causavam um bem-estar silencioso, desembaraçado e, mineiramente, observador. Brindes, risos e novas histórias invadindo o pensamento enquanto inquietas cervejas se despediam de sua origem, acariciadas por minhas mãos, saciando minha boca ansiosa de seu frescor. Me levando à compreensão da beleza do encontro e dos desígnios traçados pelas escolhas que fiz quando, aos sete anos de idade, adormeci para a realidade do dia a dia e despertei em um sonho de magia e de sons.

 

Saí daquele transe pela urgência da madrugada que já mostrava sua solidão nas ruas desertas. Também pelo silêncio daqueles que saborearam a noite e queriam voltar logo para suas casas.  Lembro-me de ouvir um “boa noite e até breve”, em coro. Seguiram... Eu, andando pelas ruas do Leblon, buscava um táxi e sonhava com “violas enluaradas” enquanto ouvia um mar ruidoso que me advertia pelo avançado da hora...

 

Agora, enquanto pedíamos o almoço, à minha frente, Paulo Sérgio Valle experimentava, com propriedade de enólogo, o vinho escolhido. Muita coisa havia mudado desde a noite no Leblon. Já o conhecia melhor e sentia o nascimento de uma amizade regada pela admiração e respeito por tudo que ele representa na música e pela pessoa de bem que é em todas as circunstâncias. Especial. Após o recente convite para compor música em parceria, eu imaginava as melodias que eu deveria criar rapidamente, para corroborar a “mentira” contada a poucos minutos...

 

Paulo Sérgio Valle completa, hoje, 80 anos. Exemplo de erudição, grande atleta e pessoa de franqueza confortadora. Sempre dizendo o que pensa com naturalidade, fortalecendo nossa confiança. Daquela longínqua noite no Leblon, ficou a lembrança da imprevisibilidade da vida. Amizade e confiança sendo cultivadas a partir de um encontro inusitado. Alimentado por longos e pausados debates sobre música, livros, vida... Temas que não acabam mais. Curiosamente uma das primeiras músicas que surgiram de nossa parceria, talvez exprima, com seu título, o meu sentimento sobre tudo o que a vida deseja nos dar e que nós nem sempre nos abrimos para receber.  “Imprevisível”* é um tema que nasceu do respiro do pensamento, como ave que se liberta de uma gaiola e voa livre, sem destino. Rumo ao que há de mais eterno na vida: dedicação, amizade, disposição para novas conquistas e a constante busca por tempos melhores. A compreensão do que somos pelo que fazemos, acreditamos e vivemos. 


Uma honra conhecê-lo. Vida longa, saúde e paz para o amigo!!!

 

*Imprevisível foi uma das primeiras músicas que fizemos juntos.

 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Música - Arte de unir os sons e os artistas

Com a pandemia do Covid-19 que assola o mundo, no Brasil, os oportunistas de plantão criaram uma verdadeira “pandemia” de ataques aos direitos dos autores, sem medir as consequências de seus atos na vida de milhares de compositores e intérpretes. A ignorância e a insensibilidade, aliadas aos interesses corporativos e alicerçadas por políticos inescrupulosos, sempre foram um “espinho” na vida dos criadores. Infelizmente, dessa vez, o golpe foi muito baixo, à altura de quem o desferiu.

O deputado federal Felipe Carreras, conhecido promotor de grandes eventos, estruturalmente orientado e amparado pela ABRAPE (Associação Brasileira de Promotores de Eventos), em pleno poder de sua mediocridade, tenta apunhalar pelas costas aqueles que alimentam os seus negócios, atacando a classe artística em um momento de fragilidade mundial. Covardemente inserindo em uma Medida Provisória emergencial (MP 948 que trata das questões do Corona Vírus), uma emenda que prejudicaria diretamente os autores, mudando critérios de cobrança e isentando completamente a responsabilidade dos promotores de eventos. Pior ainda, atribuindo condições desfavoráveis aos intérpretes, que seriam responsabilizados pelo pagamento de direitos autorais de todos os seus shows e concertos, afetando diretamente o valor de seus cachês. 

O que não imaginavam é que a classe é unida e respeita muito aqueles que estão em suas casas criando conteúdos e que, raramente, aparecem. Não fazem shows e, além de viver em quase anonimato, dependem de seus direitos autorais para o sustento de suas famílias. Direitos consagrados na Constituição Brasileira e em todos os Tratados e Convenções Internacionais. Ignorantes que são, desprezam o alicerce de tudo que acontece em seus eventos: a criação. Desconhecem o básico da produção artística. O direito do criador de receber pelo uso de sua obra. 

O que vimos, além de deprimente, foi uma jogada de hienas, no sentido negativo da palavra, segundo descrição de Aristóteles: “grande apreciadora de carne em putrefação”. Mas a reação foi imediata. Os artistas são unidos. A coletividade e o respeito mútuo da classe transcende conceitos de fama, estilo, gênero... Reagiram em benefício de todos. Nomes de projeção nacional e internacional, nomes emergentes e artistas de nichos, gritaram em coro pelos seus direitos. Uma verdadeira prova de que a lei é soberana e que os frutos advindos da exploração de nosso trabalho depende do voo que conseguimos alçar. Em momento oportuno tivemos como representante em “live” que entra para a história, a cantora Annita. Com conhecimento e paixão pela causa, foi uma das principais figuras no processo, ao dialogar frente a frente com o representante dos oportunistas: o deputado Felipe Carreras. Seus argumentos de transparência submergiram em sua própria opacidade. Com esse impulso todos os artistas brasileiros ganharam voz e cumpriram seu papel social ao defender a classe e maldizer a petulância e falta de humanidade do deputado, em momento de muita fragilidade de toda a sociedade.

Ele recuou. A emenda foi retirada da MP. Por enquanto. As hienas se afastam, mas voltam. É um instinto. Mas estamos fortalecidos enquanto classe e vamos seguir zelando por aquilo que buscamos, conquistamos e que jamais entregaremos aos oportunistas: o amor, dedicação e zelo pelo que fazemos. A seriedade com que tratamos quem nos acompanha na arte. Somos sensíveis por lidar, às vezes, com uma nota musical que nos incomoda. Por isso, temos uma percepção desenvolvida da importância de cuidarmos uns dos outros. Nos detalhes, respeito e preservação da dignidade e honestidade, onde convivem todos os conceitos do que há de mais sagrado na vida. Que todos fiquem bem e sempre atentos. Seguimos juntos!! 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Falsos profetas

Nesses tempos estranhos estamos muito expostos às tentativas de manipulação de vários poderes. Os instrumentos utilizados, muitas vezes são as religiões, às vezes por via política, guias espirituais, médiuns... Não acredito em representantes de religiões que se autodenominam iluminados, privilegiados pelo espírito e conhecedores do além. O tempo em vida, ou a morte, se encarregará de nos conduzir à verdade. Nosso coração saberá o que fazer. Nosso talento é viver. O caminho é solitário porque é na compreensão de nós mesmos, de nosso egocentrismo em defesa da imposição de ideias e de vitórias, que poderemos derrotar o nosso orgulho e vaidade. Contribuindo assim para que o mundo seja um pouco melhor, a partir de nós mesmos. Sem acontecimentos fantásticos e influências de outras dimensões. Como ser bom e pensar no bem, sem ser a partir de nossa verdadeira essência?

Grupos que coincidem em ideias que não sejam a unidade dos seres pela ética, boa vontade e a convivência em harmonia, sem impor verdades, mas questionando, discutindo e buscando as melhores soluções, com a compreensão da realidade do mundo e o respeito às pessoas e ideias, convivendo em meio às diferenças, me causam medo. Medo de uma doença do espírito, que atende somente ao afago do ego e da vaidade que consomem os ditos “grandes espíritos”.  Impor tendências em nome de possibilidades sobrenaturais é algo que repudio. A vida é aprendizado. Para todos. 

Esses falsos guias espirituais que nos rodeiam e tentam nos levar ao extermínio voluntário que alimenta sua ideologia, não conseguirão arrebanhar adeptos entre aqueles desprovidos de egoísmo e necessidade de suplantar seus semelhantes. No mundo material, lá fora, não sabemos quem nos governa. Nem com que objetivos. Somos peças de um jogo. Um jogo que de tempos em tempos se desorganiza e em seguida se reorganiza. Assim é a história da humanidade...

Gosto de olhar à noite, da janela, a cidade. Imagino quantas pessoas ocupam suas casas com suas famílias e com suas verdades e buscas. Imagino que o desconhecido seja um privilégio daqueles que conhecem as necessidades de todos os seres que povoam a terra. Dos que compartilham esse mundo com boa fé e desejo de melhores dias.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Música - Uma trajetória latino-americana

Brasil e Uruguai

A miscigenação de raças, com seus variados elementos culturais e artísticos, proveniente da Europa e da África, aliados à cultura indígena, são fatores muito importantes para a observação e estudo da cultura artística, principalmente musical, na América Latina. Cada país com sua particularidade, tem, em sua música regional, uma identidade própria que dá suporte para os avanços de novos expoentes. Que surgem com propostas avançadas e ideias inovadoras, tendo como base a essência de sua cultura, fruto de uma evolução natural.

Mesmo com todos os avanços dos últimos anos, no campo da tecnologia, quando se esperava um entendimento mundial e melhoria de vida para os cidadãos do mundo, somos forçados a admitir que muito se ganhou com o encurtamento das distâncias, pela facilidade de acesso e disponibilidade de informações, mas que também, em alguns aspectos, muito se perdeu.

Entre o Brasil e o Uruguai, por exemplo, houve um período de grande identificação, talvez nos primórdios e evolução paralela do nacionalismo musical, que contribuiu para certa interação artística entre compositores e instrumentistas. Principalmente aqueles que se dedicaram à composição, didática, exposição e execução do violão, e puderam participar de sua ascensão enquanto instrumento de concerto.

Nomes como Eduardo Fabini (1882 - 1950), que compôs “Tristes”, obra para piano e para violão, Alfonso Broqua (1876 – 1946) com a conhecida e difundida obra “Evocaciones Criollas”figuram entre os principais representantes do nacionalismo uruguaio e acenam para o que viria a ser considerado parte do repertório violonístico, expressivo para a evolução da literatura e intercâmbio do instrumento, entre os dois países. 

No Brasil, nesse período, precursores do nacionalismo como Brasílio Itiberê (1846-1913), Alexandre Levy (1864-1892) e Alberto Nepomuceno (1864-1920), entre outros, preparam o caminho para o movimento modernista do início do século XX,  cujo lema era a liberdade de expressão, contra o academismo e o tradicionalismo, enfatizando o nacionalismo e valorizando essa corrente estética. Desse movimento surgiram importantes páginas da obra de autores brasileiros, compostas originalmente para o violão. Heitor Villa Lobos viria a compor uma das mais expressivas e importantes obras, passando a ser uma referência para o repertório violonístico mundial. 

Enquanto se desenvolvia a escola do violão brasileiro, de linguagem chamada popular, representada por importantes instrumentistas compositores, entre eles Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, (1915 – 1955) e João Teixeira Guimarães, o João Pernambuco (1883 – 1947), com estilos antagônicos, o nacionalismo na música erudita, preparava o caminho do que viria a se tornar a música moderna com linguagem característica, respeitando a cultura de cada um desses países. Mesmo que, até certo ponto, sofrendo influências europeias. 

Entre 1937 e 1946, o violonista espanhol Andrés Segóvia se transfere para o Uruguai, em razão da guerra civil espanhola. Fixando sua residência em Montevideo, ele realiza muitos recitais pela América Latina, promovendo e dando visibilidade ao violão, em importantes salas e teatros voltados para a música de concerto. Durante sua permanência no Uruguai, Segóvia conhece um jovem músico chamado Abel Carlevaro, que nos anos seguintes seria seu discípulo. 

Nesse momento de grande efervescência musical, Guido Santórsola (1904 – 1994), que já frequentava o Uruguai desde 1931 como viola solista e, posteriormente, como regente da Orquestra Sinfônica do Sodre (OSSODRE), mantinha um forte elo entre a música dos dois países, presentes em suas composições. Nascido na Itália, ele viveu um longo período no Brasil e, a partir de 1940, transferiu-se para o Uruguai. Em sua obra podemos perceber momentos distintos, passando pela influência dos ritmos brasileiros e, em seguida, do nacionalismo musical Uruguaio. Radicado nesse país, ele viveria, ainda, um terceiro momento de sua linguagem de composição, onde prevalece o contraponto no desenvolvimento de obras como o Concerto para dois violões e Orquestra, por exemplo. Esse concerto foi, posteriormente, executado e gravado pelo Duo Abreu, formado pelos irmãos brasileiros, Sérgio e Eduardo Abreu. Gravação antológica de um duo reconhecido em todo o mundo. 

Nesse cenário, seguia o jovem compositor e concertista uruguaio, Abel Carlevaro (1916 - 2001). Nascido em Montevideo, nos anos de 1940 ele já fazia parte do ambiente musical latino-americano, conquistando a admiração dos mais importantes compositores que trafegavam na cena musical daquele tempo.  Importante pedagogo, Carlevaro desenvolveu um novo sistema para o estudo da técnica do violão e lecionou em importantes centros de ensino desse instrumento, tornando-se referência em todo o mundo. Tornaram-se célebres suas classes nos Seminários Internacionais de Violão de Porto Alegre, promovidos pelo Liceu Musical Palestrina. Por esses seminários passaram vários violonistas que muito contribuíram para a consolidação do instrumento no Brasil. Entre eles, o mineiro José Lucena, responsável pela criação do primeiro curso de violão em uma universidade pública federal.

Hoje podemos admitir que Abel Carlevaro foi presença marcante, tornando-se o maior incentivador do violão e criador de uma das escolas técnicas mais exploradas e difundidas no século passado.

Antes, porém, em 1931, migrara para o Brasil, seu compatriota Isaias Sávio (1900 – 1977). Em São Paulo, o violonista e compositor, criaria uma das mais importantes escolas da música erudita para violão. Inúmeros violonistas brasileiros, entre eles Antônio Carlos Barbosa Lima,  Antonio Pecci Filho, o Toquinho, (autor de várias canções populares em parceria com Vinícius de Moraes), e Marco Pereira, passaram por suas classes de violão, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Também foi seu aluno o importante pedagogo do violão erudito no Brasil, Henrique Pinto. Isaías Sávio é considerado um dos mais importantes promotores do estudo do violão no Brasil, com inúmeras edições em livros técnicos de sua autoria. Em 1963 naturalizou-se brasileiro.

Hoje, a escola brasileira do violão se guia por bases sólidas, tanto nas questões técnicas e musicais, como na busca de uma identidade plural, onde convivam, em harmonia, diversos estilos e gêneros. Nomes como Joaquim Francisco dos Santos, conhecido como Quincas Laranjeiras e Oswaldo Soares, entre outros, serão sempre lembrados como os responsáveis pela ascensão e aceitação do violão na alta sociedade, até então preconceituosa quanto à utilização do instrumento em concertos. Atualmente vivemos um “Violão Brasileiro” em constante ebulição. Cada região com suas particularidades e riquezas nativas, envolvidas por uma linguagem e roupagem pessoal que determina a marca do instrumentista.

A vertente popular, muito forte, iniciada por Garoto, Laurindo de Almeida, Luis Bonfá, João Pernambuco e Américo Jacomino, entre outros, teve sua continuidade com Baden Powell (1937 - 2000), e a magia do violão seresteiro de Dilermando Reis. Todos eles, por sua habilidade técnica e propostas inovadoras, responsáveis pelo feliz e necessário encontro com a didática de pedagogos uruguaios e brasileiros, dedicados e voltados para o estudo da técnica do violão. 

No presente, quando lançamos nosso olhar para o passado, de onde se percebe a história, somos impelidos a crer que a origem de tudo se dá na valorização do nacionalismo e na busca de identidade própria. Com abertura para o conhecimento alheio, para as propostas e investidas do mundo... Mas também para o confronto e experiência in loco e a pesquisa, onde a arte passa por filtros estéticos e culturais, embasada pelo que vivemos no dia a dia, absorvendo os elementos que utilizaremos para expressar nossas convicções artísticas. 

Podemos perceber os ecos e ventos dos precursores que nos levaram ao preparo técnico necessário para a execução de nossas ideias musicais. O mundo não tem mais fronteiras. A música ecoa em todos os cantos para aqueles que querem ouvi-la, experimenta-la, vive-la... 
E conhecê-la in loco, embora os encontros presenciais e a busca pelos concertos e espetáculos, tenham sido transferidos para o ambiente virtual. Os tempos nos indicarão os novos caminhos... 

Geraldo Vianna é compositor, violonista, arranjador e produtor musical.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Numa noite em Belo Horizonte. E a chuva caiu...

Observava uma ansiosa água buscando uma saída de seu sufocamento subterrâneo, provocado pela invasão de grossas lágrimas que vinham do céu. Entre uma cerveja e outra, eu percebia o movimento fatigado de motoristas abandonando seus carros e pedestres acuados em um ilhamento imposto por um Rio imaginário. Entre goles apressados, pouco comuns, apreciava um restaurante ao lado que, não fosse catastrófico, seria um Making of de um filme de Buñuel, por suas características surrealistas. Personagens jantando com suas pernas dentro d’água e apreciando um mar revolto batendo à porta e invadindo suas frestas. 

Mais uma cerveja servida por um garçom desconfiado. Talvez imaginando sua volta para casa. Ao primeiro gole, percebi que “não cabia mais”. Experiente nessa arte, os goles diminuíram e cederam espaço para os olhos observarem o ambiente... Pessoas preocupadas, talvez pagando pelo abrigo e segurança daquele restaurante. Lá fora, uma mulher com algumas crianças, sob a marquise. Talvez filhos. Supus que fossem aquelas famílias, ou não, que andam pela noite vendendo flores, balas e pedindo dinheiro. Triste. 

Paguei a conta, saí do restaurante e olhei para o tempo impaciente, que tentava amenizar a força da chuva. O Rio com suas águas já mais baixas, me permitia ver as pedras que teria que enfrentar pelo caminho. Automóveis apoiados em postes, alguns despedaçados, me olhavam com curiosidade. A chuva, lentamente retomando sua força, me lembrou de uma guarda-chuva maltratado, sôfrego pelo embate de poucas horas antes. Dúvida... Sem pensar muito, atravessei aquele ambiente de destruição. A água pelos joelhos, o barro sujando minha roupa e, na mente já um pouco entorpecida pela cerveja, um sentimento estranho de aventura. Ouví ainda uma das crianças gritando e chorando, exigindo uma volta para casa. Com o coração apertado, ouvia seu apelo, pensando onde seria sua casa. A chuva voltou e molhou meu rosto com suas gotas fortes e grossas...

Era apenas uma noite em Belo Horizonte, em plena Praça Marília de Dirceu. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Papai Noel

Na infância eu tinha muita pena do Papai Noel. Nas noites quentes de dezembro, eu ficava muito preocupado pensando em um velhinho tão bom, viajando a noite toda, com aquela roupa quente de lã e usando luvas grossas. Além do peso que carregava, claro. Pensava no calor insuportável que ele sentia. 

Um dia, resolvi que eu seria Papai Noel. Comprei roupa vermelha, barba comprida e branca, e tudo necessário para ser um perfeito “velhinho do bem” na noite de Natal. Meu filho, ainda novinho, me perguntava muito sobre ele... Disse-lhe que normalmente ele aparecia por volta da meia noite. Ele, muito ansioso, foi para a cama, mas, para minha surpresa e satisfação, se manteve em estado de alerta. O Papai Noel, envolvido com seu trabalho, foi surpreendido, na sala, próximo à árvore de Natal. 

Surpreso, eu ví brilhar os seus olhos de criança que olhavam atentamente o bom velhinho. Aos poucos, sua atitude de encanto, foi mudando e assumindo uma postura observadora. Com grande decepção, tocando meu braço, me perguntou se eu pensava que podia enganá-lo. Eu estava usando uma camisa vermelha, de mangas curtas, por causa do calor. Alegando que minha barba era muito branca e os pelos de meus braços negros, disse que nunca mais acreditaria em Papai Noel. Que já suspeitava que era mentira. 

Lembrei, na hora, que minha mãe, ou talvez minha avó, me disse certa vez que “Papai Noel e sonho bom, se esperamos, não aparecem”. Agora, chegando o Natal, me veio à memória esse episódio com meu filho. Acho que acredito em Papai Noel sim. Mas, hoje já mais vivido, espero que ele venha de camiseta e bermuda. Pode usar chinelos também. Que seja bem brasileiro e não sofra com uma tradição que não nos pertence. Mas que tanto ele quanto o sonho, não apareçam enquanto estivermos dormindo. Que ele venha rodeado de festas, alegrias, comemorações e que todos os povos possam recebê-lo. Que, mesmo convictos de suas limitações, possam ajudá-lo na simples tarefa de espalhar a esperança, o respeito e a solidariedade. Presentes também... Que o mundo seja simples e que ele seja um mensageiro de paz. Mas espero que não cometamos a injustiça de exigir que ele vista uma roupa inapropriada para cada país, nesse vasto mundo, que possa nos levar à dúvida sobre sua existência. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O riso de escárnio das hienas

Lembro-me da primeira vez em que vi, na porta de um teatro, um cartaz anunciando meu show. Aquela simples exposição me fez sentir que eu era um personagem na cena musical de Belo Horizonte. Jovem, imaturo e idealista, pensava na possibilidade da projeção de um trabalho tecido no sonho e no dia a dia dos estudos. Com o passar dos anos veio a consciência empresarial, necessária, de uma profissão chamada de “sagrada”, porém massacrada pelo conservadorismo piegas das mentes “cuidadosamente incultas” - ou explícitas - que conduzem a política no Brasil. Atualmente, projeção da maledicência e obscurantismo de governantes, onde os dogmas prevalecem à dignidade do bem viver e aos direitos dos cidadãos, equilibrados com os deveres. Uma falsa virtude muito apreciada nos tempos atuais, que disfarça e deixa transbordar as garras bestiais da Fera (ódio, rancor, preconceito, indiferença), mutilando e condenando a Bela (natureza, respeito, solidariedade, diferenças de credos... O Planeta).

Conversando com um amigo norte-americano, também compositor e instrumentista, eu falava da força econômica do cinema em seu país e da Indústria Cultural e Criativa brasileira que, hoje, é responsável por uma infinita rede de empregos diretos e indiretos, gerando renda e fazendo circular milhões de reais em todo o país*. Atraindo turistas de todo o mundo e cultivando uma identidade nacional marcada pela pluralidade, onde a miscigenação de raças, com suas crenças religiosas multifacetadas, lidera, com pioneirismo, a independência do aval de forças corporativas multinacionais, destrutivas, que rondam o quintal de nossa terra e de nossa arte brasileira.

Ele, se divertindo, me pergunta se estou comparando os outros países a hienas. Respondo com sinceridade que não. Os artistas, compositores e autores, no mundo todo, estão unidos em associações e alianças e nos apoiam a uma só voz. Imunes ao preconceito. Respeitando os direitos de todos e rendendo graças à qualidade de nossa música, cinema e arte em geral.
Entrando em seu jogo, também sorrio e acrescento: mas que há hienas, “las hay”. Estão infiltradas, atualmente, nos frustrantes cargos administrativos de setores governamentais da cultura no Brasil, por sua insignificância artística e criativa. Diante de um vasto mar, porém acorrentadas ao porto inseguro da ignorância que ofusca sua visão. O mais perturbador possível: posso ver o seu riso de escárnio.

*Dados da UNESCO em pesquisa realizada em 2015 em parceria com a Cisac (Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores).

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Memórias...

Havia poucos bairros. Talvez dois. As três ruas principais eram popularmente chamadas de “do meio, de baixo e de cima”. A do meio era calçada com pedras retangulares, com um formato abaulado e grandes paralelepípedos delineando os passeios. À noite, era palco para as brincadeiras de queimada, esconde-esconde e bandeirinha estourou, entre outras. Interrompidas somente pelo chamado dos pais, que de dentro das casas lembravam às crianças a hora do banho e o “já para a cama”. Os amigos eram vizinhos, colegas de escola e participavam do dia a dia da cidade onde não havia, aos olhos daquelas crianças, diferenças sociais que as sobrepusessem aos outros. 

Eram iguais. Nas brincadeiras, alternavam o sentimento de vencedores e perdedores. Ali surgiam os primeiros namoricos, as brigas e reconciliações, disputas... Tudo na mais perfeita ordem desordenada do ritmo de formação e interação de crianças livres. Envolvidas por pais bem intencionados, dentro de uma sociedade pacata e justa. A instituição família se expandia aos adultos vizinhos, pais de outras crianças que, ao seu modo, contribuíam para a educação de todos. 

O centro de todos os acontecimentos era a velha igreja, solitária no alto de um morro, com seu sino que assustava em dias comuns, quando anunciavam a morte de algum conterrâneo. Havia também a banda de música. Essa era regida magistralmente por Antonio Caetano de Freitas. Conhecido como “Antônio da Alzira”, professor de quase todos os músicos daquela época, famoso por sua competência e rigidez no ensino. 

Assim se desenrolava o cotidiano dos moradores e os sonhos seguiam tranquilos rumo a sabe-se lá o que. 

Com a evolução industrial e os lampejos de uma nova era, começaram a surgir novas perspectivas de crescimento e desenvolvimento em todo o país. Essa cidade não ficaria impune. Sempre talentosa para as artes, descobriu também sua aptidão para os negócios que a conduziriam ao reconhecimento nacional, por meio da indústria calçadista.  

Vivendo em uma casa com quintal muito grande, com árvores frutíferas, nativas e um jardim à frente, habitada por crianças e bichos de estimação que dominavam o território, víamos o aumento de automóveis nas ruas, a pressa das pessoas ao amanhecer, atendendo aos sons das sirenes das fábricas e o aparecimento de novos personagens na vida social da cidade. Eram os tempos modernos que mudavam nossos natais, nossas semanas santas, nossos costumes e desenvolviam, aos poucos, em todos os moradores, o conceito e diferenciação de classes sociais. 

Vidros de automóveis já delimitavam as diferenças e já se percebia algum distanciamento entre as pessoas. Reuniões em esquinas regadas a conversas despretensiosas e música (batuque, como era chamado esse encontro musical), eram transferidas para clubes. Alguns pequenos grupos já se dirigiam aos guetos que surgiam na cidade. A busca pela profissionalização aumentava e o grau de competitividade levava todos à dedicação integral aos negócios. O encontro entre as pessoas, mesmo as mais próximas, tornava-se algo difícil. Quase impossível.     

Novas construções davam à cidade de três ruas o ar de metrópole. Novos bairros eram construídos para acolher emigrantes de todo o país. Aquelas três ruas, sufocadas pela multidão, e os poucos bairros existentes naquela época, guardariam eternamente, no sonho daqueles que viveram livres e em harmonia, o sentimento de igualdade e de que a vida bem vivida não se pensa. Se vive.

Esporadicamente volto às suas ruas. Gosto de andar na noite, na madrugada... Quando as lembranças povoam o deserto que emana da nostalgia. Ouço falar da violência, da política e, com entusiasmo, da arte. Prova de que a arte continua prevalecendo e exigindo seu espaço, embora, muitas vezes, enfrentando o alheamento sócio cultural, contaminado pelas chagas desses tempos incultos. Mas rapidamente o bom senso me lembra que isso ocorre no mundo todo. 

Uma coisa ainda me aquece a alma inundando-a de esperança: vejo e reconheço algumas pessoas, em suas portas, conversando, vivendo... Alguns já idosos, mas fiéis à curiosidade pelo movimento das ruas. Outros, em eterna contemplação, como se a vida passasse diante de seus olhos. Como se olhassem o mundo moderno e somente enxergassem os velhos tempos. Muitos já se foram. 

Mas eu os vejo e revejo nas histórias, anedotas e locais que frequentavam.  O melhor de tudo: alguns que conheci, criança ainda, agora têm seus filhos e, em alguns casos, netos.
É o mover da vida. Sonhos se alternando com momentos de realidade e nos conduzindo à busca de melhores dias. 

Tudo isso me reporta àquele tempo em que eu imaginava morar em um grande casarão que ocupava um terreno imenso na rua “do meio”. Era meu olhar de criança. 
Mais tarde percebi que a casa não era tão grande assim e que o terreno também era pequeno. Não sei se eu cresci me imaginando maior que as coisas que me rodeavam, ou se busquei a pequenez, contaminando meus olhos ao vislumbrar o mundo, longe daquele quintal. Impedindo que eu transitasse pelas pequenas e belas ruas da vida. 

Tudo isso sou eu. O que tenho no coração e na vida, está relacionado a esta cidade: Nova Serrana. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Estigma - Queria que fosse um poema

Em uma esquina, no bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte, fiquei durante alguns minutos observando uma moça, de cócoras, revirando os sacos de lixo de um prédio em frente. Ela, ao sentir-se observada, levantou-se e olhou para mim, limpando as mãos em sua saia longa. Lindos olhos grandes e negros que me pareceram, talvez, envergonhados. Que preferiam não serem notados, pareceu-me.

Era jovem e muito bonita, com cabelos encaracolados e um corpo muito atraente, embora vestisse roupas velhas e surradas, porém limpas. Percebi um belo gesto feminino quando ela, com as costas da mão, ajeitou seus cabelos e se recompôs, recostando-se em um poste. Não consegui deixar de olha-la. Estranha visão o quadro à minha frente. Um contraste do ideal estético que o mundo, com seus modismos, nos leva a buscar e a aversão com a qual estamos acostumados a considerar os “restos” de nosso dia a dia.

Ali eu quis ser Henri Cartier-Bresson e, com poesia, registrar um momento tão sublime da espontaneidade da singeleza e da beleza humana. Ou quem sabe documentar, como Sebastião Salgado, momentos que se congelam num piscar de olhos à nossa frente para inebriar nossa alma e fazer brilhar nossos sonhos. Nos dizendo que falta ainda muito para aprendermos sobre a vida.

Em meu íntimo tomei coragem e, em uma imagem idílica, posei junto com ela, para Robert Doisneau. Mas isso foi apenas uma nuvem que passou pela minha imaginação. Como aquelas que na infância, quando deitado no chão, eu observava no céu e via animais se movendo, heróis e vilões em batalhas, castelos e princesas construindo minha vida...

Com certa angústia tive medo de perder aquele momento. Confronto entre meus conceitos de beleza, de sucesso e de poder na vida, agora ameaçados. Ela, como se despedindo, levantou e, desistindo de seu trabalho, apanhou uma sacola com algumas “preciosidades” encontradas no lixo de outros e afastou-se. Eu, cruel invasor de seu trabalho, fiquei ali parado, olhando-a enquanto se afastava...

Mais tarde, repassando essa estória (?) lembrei-me de *Guimarães Rosa:

“Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...”

*Magma

Áudio / Vídeo - Estigmas - Queria que fosse um poema

https://youtu.be/vgLKPZxmqkU