domingo, 1 de outubro de 2017

Ciranda

Pensei nos chamados “Parques de diversão”, de minha infância. Simples, empoeirados… Mas que me deixavam empolgado e feliz com suas “canoinhas”, principalmente. Cordinhas puxadas em sentido contrário e duas crianças se auxiliando com toda a força dos braços, para alçar grandes voos. Havia também um cheiro de pipoca e uma música que minha memória não quis guardar. Esqueceu. 
Veio-me também à memória, a lembrança do palhaço nos circos. Verdadeiro artista, esse sempre foi o meu ídolo. Ficava sempre curioso para conhecer o rosto por trás da pintura e durante muitos anos alimentei em minha alma infantil a possibilidade de ser como ele. Um dia, junto com meu filho, aventurei-me nessa jornada. Rompi as amarras e encarei o que, depois, entendi ser o melhor momento de minha vida. É que meu companheiro de travessuras acreditava piamente na veracidade desse sonhador e me deu o suporte necessário para a conquista máxima da vida. O desprendimento e a liberdade de ser o que se é naturalmente. Com ele vivi, na pele, todos os heróis que conheci em minha infância. Por um breve instante, pelo menos, viajamos juntos e eu me transportei para aqueles mundos, até então esquecidos em minha memória.  
Agora, enquanto esses pensamentos passeavam pela minha mente eu via pessoas felizes e sorridentes, conversando, comendo e bebendo. Enquanto eu mirava uma belíssima “Floresta Negra”, à minha frente, com breves olhadelas para trás, acompanhava um lindo por do sol, provando, para mim, ser ele o mais belo horizonte. Suas cores estavam vivas e saltitantes, refletidas no correr das crianças. Sua vivacidade emanava dos gritos dessas crianças, me lembrando a música dos parques, das missas e… Das Cirandas na escola. Mas o tempo não para. Agora eu somente podia olhar. 
Para trás, para o presente e tentar vislumbrar o futuro que não existe.
Enquanto sentia o prazer de uma cerveja invadindo meu olhar, me tornando leve o coração e mansa a voz, me levando ao breve instante em que entendemos o sentido de nossa vida, eu revivia, animado, histórias da infância com outros que, em volta da mesa, completavam o meu pensamento. Deixavam que, com minhas histórias, eu me tornasse um grande pistoleiro ou mocinho no cinema, com um grande chapéu e dois coldres abaixo da cintura. Preparado para o duelo triunfal “ao por do sol”. 
Lembrei-me de um episódio em que, emboscado por meus inimigos, ao receber um tiro de espoleta, caí com uma queda cinematográfica, em um grande reservatório de água que havia em minha casa. Fui salvo por duas mãos que me levantaram pelas orelhas, manchando assim, minha reputação de grande herói do oeste. Algo esquecido um dia após essa tragédia.
Como em tudo há urgência, saí do hipnotismo para o parabéns. Afinal as crianças são ansiosas nas festas e temos que entende-las. Elas não precisam do sonho. Suas vidas são “o sonho” e, algumas vezes, em breves lampejos, conseguimos sonhar junto com elas. Cantamos, abraçamos e pude ver a “Floresta Negra” sendo desmatada naquela mesa alegre, juntamente com brigadeiros e outras guloseimas. 
Naquela altura, eu já não entendia o sentido da vida. Aquele instante já passara e cedera seu lugar à sonolência. Boa, por sinal, porque me instigava a lutar contra ela. Me sentindo, em pensamento, um pouco ridículo, percebi que, para ficar bem, eu teria que me envolver em novas aventuras, salvar os fracos e oprimidos e tentar resgatar o palhaço, o menino simples e sonhador que brincava nas canoinhas dos parques. Toma-lo das mãos do mundo que insistia em provar que a razão se sobrepõe à imaginação. 
Nessa Ciranda, lembrei-me da frase, acho que de Dostóievski: “Há momentos, e você chega a esses momentos, em que, de repente, o tempo para e acontece a eternidade.

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