domingo, 22 de outubro de 2017

Sonhos graciosos - Encontros

O acaso nos leva para onde quer e como quer... De repente nos deparamos com algo inesperado. Detalhes sutis que nos arrastam para outros pensamentos, que nos conduzem às conclusões sobre a vida que, às vezes difícil, nos remete ao sonho como única saída e possibilidade para aceitar a realidade. Nem sempre como gostaríamos. Apenas aquela possível.

Olhava as luzes de um restaurante em frente, imaginando quantos assuntos e pensamentos diferentes, simultaneamente, tentavam, naquele instante,  se fazer entender. As pessoas gesticulando e falando alto. Somente se ouvia um som indefinido de muitas falas. Na rua, carros passando e contribuindo. Reforçando o som do mundo. O som do mundo experimentado nas grandes cidades. Em minha mesa a fala era mansa, em volume adequado às conversas tranquilas, revigorante por sua natureza espontânea e descompromissada. À minha frente duas luzes suaves iluminando a noite que chegava com o frescor de um hálito que contrariava o calor da tarde. Tudo era inusitado. Obra do acaso. Talvez de um acaso forjado, planejado... Como todos os acasos.

Um chopp suave e gelado acalmava o olhar, tornando-o paciente e lânguido como uma aquarela em um livro de Hermann Hesse. Era uma "Caminhada" que se iniciava. A luz do crepúsculo me fascina. A chamada "fresta entre os dois mundos" me perturba, tornando-me mais calmo e observador. À espreita... Consigo, nesses momentos, enxergar o mundo com mais poesia e romantismo.

Enquanto um garçom solícito, daqueles que cultivam o prazer dos olhares felizes de sua clientela ao mirar os "copos cheios", cuidava com esmero de seu ofício, eu, entre uma conversa e outra, já ofuscado pelas duas luzes à minha frente, atendia a algumas pessoas simples, sedentas de algum dinheiro para matar a fome ou para exercitar a arte do "pedir". Alguns com interpretações impecáveis que os tornava dignos de obter uma pequena ajuda. Outros, péssimos atores, interpretavam a sua realidade. Esses me deixavam consternado, tentando sentir em mim a dor que os movia no dia a dia. Mas eu não podia me render ao sentimento de tristeza. A noite era boa. O acaso cuidava de tudo para que parecesse que as peças ocupavam seu lugar exato nesse tabuleiro de xadrez que é a vida.

Para coroar a noite, duas crianças, muito limpas e bonitas, pequenas ainda, se aproximaram pedindo algo para comer. Havia em suas fisionomias uma aura de dignidade pouco vista por mim em toda a minha vida. Não esmolavam. Eram autênticas. Precisavam comer antes de voltarem para suas casas. Depois de um breve bate papo, escolheram uma mesa e aguardaram a bebida e a comida. O garçom, com solicitude, atendeu-as de acordo com todas as regras de etiqueta assimiladas em escola. Para mim, ele era um verdadeiro acadêmico. Daqueles que transcendem a técnica de escola e incorporam o verdadeiro alheamento às características dos clientes, necessário aos que servem por ofício.

Enquanto observava o copo de chopp à minha frente, evitando as duas luzes que ofuscavam minha visão, fui chamado pelos meninos que agradeciam e se despediam. Perguntei-lhes se iam para casa. Já era tarde. Olharam-me com seriedade, respeito e confirmaram. Fiquei ali algum tempo vendo-os enquanto se afastavam. Do outro lado da rua, fortes vozes e pensamentos tentando se fazer entender. Os poucos carros já tornavam a rua mais silenciosa. Somente as luzes à minha frente continuavam acesas e o hálito suave da noite inundando todo o meu ser.